Colunas

O último Prado

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Naquela manhã nublada de março de 1970, o Correio do Povo publicava uma manchete que abalou a todos nós – os bondes de Porto Alegre estavam sendo aposentados para ser trocados por modernos tróleibus. Mais tarde, na redação do jornal, as notícias pipocavam e diziam que os bondes que ainda circulavam pela cidade seriam recolhidos à noite ao depósito da Carris. 

***

Era algo difícil de acreditar. Ouvia os jornalistas veteranos lamentarem o fim de um patrimônio da cidade e que foram parte da vida dos porto-alegrenses. Mas era preciso pensar na próxima edição e repórteres e fotógrafos já saíam para entrevistas na Carris e na Prefeitura. O secretário de redação reservava três colunas da última página e mais duas páginas internas para cobrir o último dia de bondes em Porto Alegre. Na pausa para o café, o repórter que chegava da Companhia Carris contava o que presenciou. Disse que no fim-de-tarde começaram a chegar os bondes que haviam completado suas últimas viagens pela cidade. 

Aguardados por motorneiros, cobradores e mecânicos que agitavam os quepes, saudando com gritos os bondes que chegavam, tocando suas campainhas. Comentou que viu as lágrimas dos veteranos quando surgiam carros das linhas que foram parte de suas vidas: os Partenon, Glória, Teresópolis, Gasômetro, Petrópolis, Independência, os Duque. Impaciente, quis saber qual fora o último bonde a entrar no pátio. O colega não lembrava e quem respondeu foi o fotógrafo Alberto E.:

“Eu lembro – foi um gaiola, um bonde Prado”.

Na adolescência, os bondes “gaiolas” Prado e os “camarões” Independência eram minha passagem para a modernidade e charme do centro da cidade. Por algumas horas, ficavam para trás as ruas tranquilas sem carros e os casarões silenciosos e ingressava no universo fascinante da Rua da Praia e as elegantes vitrinas da Loja Krahe, da Sloper, da Casa Masson e das guloseimas e delícias das confeitarias Jahn e Schram. A festa já começava na parada da Praça Júlio de Castilhos, onde meninas do Bom Conselho sentavam nos bancos à espera de alguma coisa. Eu ficava pela praça, vendo passar os Independência, para pegar o primeiro “gaiola” Prado. Que disparava avenida abaixo, sacolejando e guinchando nos trilhos.

Era impossível ignorar sua passagem, com os guinchos e estalidos que faziam as pessoas voltar a cabeça à sua passagem. Algumas vezes, éramos saudados por olhares e acenos de meninas debruçadas nas janelas dos grandes casarões. Eu me acomodava nos bancos de carvalho polido para admirar os cartazes do Xarope São João, da Emulsão de Scott, do Iofoscal e da Saúde da Mulher, Número Um e Número Dois.

Por onde andariam aquelas poções maravilhosas?

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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