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Doce paixão

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“(…) São belos demais para serem de uma mulher”.

Jean-Jacques Rousseau.

A literatura de Portugal é rica e copiosa em correspondências de amor, contando estórias de paixões proibidas, frustradas ou com finais felizes. No século XVII, sabe-se de um episódio notório que mexeu com a mais do que conservadora sociedade lusitana. Aconteceu entre uma freira de um convento no Alentejo e um militar das tropas francesas de Luís XIV. 

***

Foi um caso de amor instantâneo, quando Soror Mariana Alcoforado se apaixonou pelo capitão Noël Bouton. Mesmo na clausura, ela escreve ao oficial de cavalaria se dizendo disposta a abandonar seus votos e fugir com ele para a França. No entanto, para o garboso militar, aquilo era apenas uma aventura passageira, mas mesmo assim, ele promete que  vai buscar Mariana no convento quando deixar Portugal. Mas como acontece em contos de amores frustrados, Noël Bouton e futuro Conde de Saint-Léger, esquece da palavra e ignora as cartas de apaixonadas que continuam a chegar do Alentejo.

Apesar de desiludida, Soror Mariana continua a escrever de sua cela no convento, até se dar conta de que nunca mais encontraria seu amado.   Em uma última e amargurada carta, ela dá adeus às esperanças: 

“Escrevo-lhe pela última vez e espero fazer-lhe sentir,

que finalmente, terminou por me convencer de

que já me não ama e que devo, 

portanto, deixar de o amar”.

 

As cartas são publicadas em forma de folhetim e causam escândalo em Portugal com moralistas condenando a”Freira Pecadora”. Na França, quando as Cartas Portuguesas são publicadas, o filósofo Jean-Jacques Rousseau declara que as cartas, por sua beleza poética, não poderiam terem sido escritas por uma mulher.

Mas ao quase ao mesmo tempo, escritores como Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco sensibilizados com a qualidade literária das cartas, as usam como modelo para novelas, poemas e peças de teatro. O pintor Henri Matisse reproduz o rosto de Mariana em uma série de litografias, que são usadas para ilustrar as publicações em Portugal e França.

Ao final de tudo, a frustrada paixão de Mariana rendeu mais do uma coleção de cartas de amor. Ela permanece pelo resto da vida no claustro, onde chega ao posto de abadessa. Recolhe antigas receitas conventuais do século XV e em pouco tempo a fama dos doces do Convento de Beja se espalha por Portugal. 

Muitos anos depois, as iguarias de Soror Mariana são incluidas no acervo da doçaria conventual e muitos dos doces permanecem como objeto de desejo – o Bolo de Santo Alberto, as Trouxas de Ovos da Conceição, o Bolo de Requeijão e os mais celebrados, os Papos de Anjo de Soror Mariana.

*** 

Assim, para os que escreveram sobre a estória de Soror Mariana, coube um final não totalmente amargo e triste, pois permanece a herança doce que sai dos fornos e fogões de um convento no Alentejo.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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