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Armadilhas

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Não sei exatamente bem o motivo real, mas no outro dia me bateu vontade de conversar com o Mario K., um velho amigo que não via há meses. Ele é um dos poucos sobreviventes que caminham comigo rumo aos 90 anos. Depois das gentilezas de praxe, inventei de perguntar o que devemos fazer no tempo ocioso entre refeições e entre sesta até hora de vestir o pijama. Ele não deve ter achado graça, pois falou, com voz mais grave do que a habitual:

” – Cuidado com as armadilhas do passado”.

***

Conheço muito bem meun amigo para perceber que ele falava sério e que tentava dizer algo importante, além das trivialidades de uma conversa ocasional. Mario K. sempre foi muito sensível aos tropeços da vida, lamentando do tempo que se perde com coisas fúteis e inúteis. Mas então eu quis saber quais são as tais armadilhas do tempo, mas ele já contava a má idéia que teve ao arrumar suas gavetas e armários, pois acabou encontrando o que não queria.

E continuou – “…ao mexer naquelas gavetas, me deparei com antigas agendas de trabalho e centenas de cartões-de-visita. Então cismei de ler as anotações nas agendas e os nomes nos cartões-de-visita. E logo me arrependi – aquilo trouxe de volta situações, pessoas e lugares que me custaram grandes tristezas e também muitas alegrias…”.

Fez uma longa pausa, como alguém que leva um tombo e tenta se erguer. Contou que jogou tudo na lixeira, pois as lembranças estavam ficando pesadas por demais. Disse que eu deveria fazer o mesmo, evitando a todo o custo abrir minhas velhas agendas e tentar lembrar quem eram as pessoas nos cartões-de-visita. Foi uma curioosa coincidência, pois justamente no dia anterior, eu havia começado a esvaziar gavetas, tentando se livrar da papelada, quando encontrei uma caixa esquecida, com todas as minhas agendas dos anos 60 e 70. E ainda mais – uns albuns com cartões-de-visita organizados por ordem alfabética. Eram de pessoas que em um lugar no tempo tiveram algum ou muito significado, mas que hoje já não lembro quem eram.

Ao final da conversa, o amigo parecia aliviado por ter avisado das tais armadilhas do passado. E antes de se despedir, citou uma frase de T. S. Eliot, um dos poetas preferidos de nossa juventude. Aquilo soou como um mantra:

“Não existe espetáculo mais deprimente

do que um homem que não esquece o

mundo que já se esqueceu dele”.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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