Refletir sobre os acontecimentos da política nacional neste março de 2016 nos obriga a revisitar os conceitos de “favor”, “jeitinho” e “corrupção” que estão internalizados no cotidiano da cultura política brasileira, nas relações de “compadrio” de muitos políticos, e fazem parte da reciprocidade da política brasileira. Na prática, estes três conceitos confundem-se entre si, aumentando a permissividade das relações sociais e dificultando a capacidade do estabelecimento de práticas republicanas capazes de delinear de forma mais clara a distinção entre o campo “pessoal” e o campo “impessoal”. Do ponto de vista prático, é preciso que se entenda que em uma democracia republicana o “eu me dei bem” não pode ser resultante de uma ação inversa “alguém se deu mal”.
Por princípio básico, o conceito de “favor” está associado à ação espontânea que é realizada por um indivíduo por empatia ou consideração: “o que se faz para alguém de graça, sem obrigação”.
A diferença entre os conceitos de “favor” e “jeitinho” nos leva para o cerne do atual problema do país: O “jeitinho”, inicialmente sinônimo de “criatividade”, adaptou-se para a capacidade de resolver problemas ou tarefas utilizando subterfúgios, burlando regras, utilizando-se de rede de relacionamento e se constituindo como uma forma de “levar vantagem”.
Deve-se destacar que três fatores nutrem a cultura do jeitinho brasileiro: 1º) desconhecimento da população em relação ao sistema político e o ordenamento jurídico; 2º) os entraves e dilemas da burocracia brasileira (sistema feito para quem conhece); e 3º) usurpação de muitos detentores de cargos públicos (eletivos ou não) que tratam o público como algo pessoal.
O conceito de corrupção tem várias matizes conceituais, desde a premissa de modificação ou adulteração de características de algo, passando pela ação de subornar uma pessoa buscando um bem próprio (como a aprovação de um projeto), uso de meios ilegais para apropriar-se de informações privilegiadas em benefício próprio até chegar na propina ou comissão em contratos públicos, como se tem notícia em operações como a Lava Jato.
Estes três conceitos estão mesclados e inseridos na cultura política da população brasileira de uma forma acintosa e subsidiam práticas cotidianas prejudiciais à sociedade e, principalmente, compõem a base de formação dos representantes do povo: os políticos.
Na visão dos eleitores, os políticos disputam pleitos para garantir o poder da “troca de favores”: de indicar cargos de confiança, conseguir vagas de trabalho para amigos e familiares ou benefícios pessoais com empresários. Esta leitura sobre a “troca de favores” percebe a política como algo pessoal, onde os interesses individuais estão acima do bem comum. Esta “troca de favores” se transforma em reciprocidade na política, ocorre nas mais variadas relações do dia-a-dia e faz a simbiose entre o favor, o jeitinho e a corrupção.
O princípio da reciprocidade ativado no setor público destaca a “pessoa” e não o “indivíduo”; a pessoa envolve o status, ocorre uma troca que é personalizada entre pessoas, onde a obrigação passa a se chamar “favor” ou “jeitinho”. E dentro deste princípio existem diferentes tipos de trocas, que são legitimadas como “algo natural”, que faz parte do dia-a-dia. Na reciprocidade é onde ocorre a fusão entre a representação e a mediação, que espera dos políticos a “atividade de despachantes”.
O comportamento, baseado na percepção pessoal de reciprocidade, é reflexo da forma como a política está estruturada, de como a cultura funciona, de como nós nos relacionamentos. Em outras palavras, devemos observar as denúncias, os áudios e as disputas que assolam o noticiário do país em relação à política (e a operação Lava Jato) com a seguinte reflexão: salvaguardando as proporções, até que ponto os comportamentos não republicanos que observamos nos relatos do noticiário neste momento não estão inseridos nas estruturas do país de cada uma das cidades, nas instituições e nas relações cotidianas da população, favorecendo a dificuldade em se separar favor, jeitinho e corrupção?
Lutar contra a cultura do jeitinho é tão importante quanto lutar contra os políticos que navegam do jeitinho à corrupção, argumentando que estão fazendo um favor para a população!
