Porto Alegre recebeu Caco Barcellos como a cidade recebe alguém que já conhece de cor: com barulho, com calor e, no fim, com o som dos sinos da Catedral Metropolitana cortando o ar da tarde do último sábado, 16. O momento fez parte do Festival Fronteiras e teve como condutor o poeta e escritor Fabrício Carpinejar, que convidou o jornalista a revisitar a vida pessoal e profissional, falando sobre a ida ao Irã, matérias investigativas e o dever do Jornalismo em ouvir histórias.
Entre os dois havia uma sintonia rara: perguntas que abriam gavetas, respostas que viravam crônicas. O público ria, se calava, ria de novo. Foi no palco ‘Catedral Metropolitana’, na Praça da Matriz, que o renomado repórter investigativo do Brasil falou diante de uma plateia que não deixou sobrar uma cadeira vazia.
Revisitando a juventude
Caco contou que, antes da faculdade, foi taxista em Porto Alegre, e que já naquela época ouvia mais do que falava. Eram os passageiros que o ensinavam. Mais cedo ainda, menino insone, saía perambulando pelas ruas da cidade de madrugada e foi assim que descobriu, por acaso, que a dona de uma boca de fumo era uma mulher sem as duas pernas. A cidade sempre foi sua primeira pauta.
Mas foi ao falar do Jornalismo que ele se mostrou mais fundo. “Das ferramentas anteriores à inteligência artificial, o que mais me encanta é o ouvido”, disse. Toda manhã, ainda deitado, ele se faz duas perguntas: qual é o meu destino? Quem eu vou conhecer hoje? “Não tem nada mais encantador da nossa profissão do que a possibilidade de conhecer uma pessoa nova todo dia e poder aprender com ela.”
Nas favelas, esse método tem rituais. Caco não entra como invasor, espera o convite, chega devagar, pede um café. “Adoro ouvir. Adoro ser convidado.” É com o café que as portas se abrem, que as avós aparecem, que as crianças pedem selfie e, mais tarde, uma mensagem gravada para algum parente distante. Só depois de muitos desses cafezinhos é que ele começa, de fato, a trabalhar.
Cobertura no Irã
Sobre o Irã, onde entrou em meio a 800 jornalistas que disputavam uma vaga durante o conflito com os Estados Unidos, Caco contou como foi à embaixada, explicou seus objetivos e propôs mostrar o que ninguém costumava mostrar. A estratégia, como sempre, era ouvir antes de gravar.
Quando a conversa com Carpinejar chegava ao fim, os sinos da Catedral começaram a tocar, como se a cidade tivesse anunciando o fim do encontro. Caco havia dito, momentos antes, que apreciava a arte de ouvir. “Maravilhoso”, murmurou sobre o momento. Carpinejar entendeu: ficou em silêncio. Deixou o sino falar.
Vulnerabilidade
Ao contar a história da fonte que tornou possível ‘Rota 66’, seu primeiro livro, no qual desmonta a intrincada rede do esquadrão da morte oficial de São Paulo, Carpinejar perguntou: “Como você fica amigo dessas pessoas e não se sente derrubado emocionalmente?” Caco respondeu prontamente. “Quem disse que eu não me sinto?”
E ele completou: “O sofrimento próprio fica apagado diante do tamanho da tragédia que está acontecendo ali — tão infinitamente maior do que qualquer coisa que se possa sentir”. Foi uma tarde de aprendizados, reflexões e escuta.

