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Nossas Pequenas Certezas

Vivemos uma era curiosa: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em mudar de opinião. Basta acompanhar qualquer debate público por alguns minutos, na política, no futebol, na economia ou até nas discussões mais banais da internet, para perceber que os argumentos frequentemente importam menos do que o lado ao qual cada pessoa decidiu pertencer.

O mais intrigante é que raramente estamos diante de simples falta de informação. Gostamos de acreditar que quem pensa diferente apenas desconhece determinados fatos e que, diante da evidência correta, inevitavelmente mudaria de ideia. Mas o comportamento humano funciona de maneira bem menos racional. Muitas vezes, o problema não está no que alguém não sabe. Está no que ela emocionalmente não consegue aceitar saber.

É aqui que entra o chamado Efeito Dunning-Kruger, uma teoria psicológica que mostra que pessoas com baixa competência em determinado assunto tendem a superestimar a própria capacidade. Como elas não possuem repertório suficiente naquela área, não conseguem sequer perceber o próprio erro. Traduzindo isso para o cotidiano, quanto menos alguém entende de um tema complexo, mais fácil acha que resolve tudo com uma frase pronta de efeito.

Às vezes a situação é ainda pior porque o sujeito simplesmente não quer saber. Mudar de opinião dói. Não é uma simples troca de arquivo na gaveta mental. É uma ameaça ao grupo, à identidade e à sensação de pertencimento de alguém. O cientista Dan Kahan chama esse fenômeno de cognição protetora da identidade. Na prática, o nosso cérebro tenta proteger a tribo à qual pertencemos: se um fato ajuda o meu grupo, eu o divulgo; se prejudica, eu desconfio; se destrói a minha narrativa, eu ataco a fonte.

A pesquisadora Ziva Kunda também mapeou esse comportamento ao demonstrar a existência do raciocínio motivado. Ela provou que as pessoas não raciocinam sempre para encontrar a verdade factual, mas sim para chegar à conclusão que elas já desejam defender desde o início. Ou seja, em uma discussão, o indivíduo comum não está procurando uma prova real. Ele está apenas procurando munição para o seu ponto de vista.

Basta observar o comportamento das torcidas políticas brasileiras. Quando surgiram as denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro André Esteves Vorcaro, boa parte dos apoiadores mais fanáticos não demonstrou qualquer indignação inicial ou preocupação em entender os fatos. A reação automática foi procurar imediatamente uma justificativa, uma teoria paralela ou algum argumento improvisado que tornasse aceitável aquilo que, se praticado pelo adversário político, seria tratado como prova definitiva de corrupção moral. É quase um reflexo condicionado: quando o aliado erra, busca-se contexto; quando o rival tropeça, exige-se crucificação pública. Na militância digital, a coerência costuma perder feio para a conveniência emocional.

Essa nossa dificuldade em admitir o erro foi historicamente ilustrada pelo psicólogo Leon Festinger na década de 1950. Ele estudou um grupo religioso nos Estados Unidos que acreditava piamente que o mundo acabaria em uma data específica. Quando a profecia falhou e o mundo seguiu firme no dia seguinte, os membros não abandonaram a crença. Pelo contrário, tornaram-se ainda mais fanáticos, acreditando que o mundo não havia terminado graças às orações que eles tinham feito e que teriam sido ouvidas. Eles agiram assim porque admitir o erro seria emocionalmente insuportável. A dinâmica das redes sociais hoje funciona exatamente da mesma forma.

Para piorar o cenário, os algoritmos perceberam essa nossa fraqueza e transformaram o orgulho em modelo de negócios. A rede social não recompensa a dúvida. Dizer que algo é complexo reduz drasticamente o alcance de qualquer postagem. O sistema recompensa a certeza, a raiva, a humilhação e a guerra cultural. O que realmente viraliza é o grito que diz que o outro lado é um lixo. Fomos empurrados para uma arena onde a lealdade tribal engoliu a lógica científica.

No fim das contas, as discussões cotidianas viraram menos uma busca por soluções e mais um campeonato de torcidas cegas. Talvez o verdadeiro ato de coragem atualmente não seja defender uma bandeira até o fim, mas ter humildade suficiente para olhar para si mesmo e se perguntar, de vez em quando, se não estamos redondamente enganados. Afinal, o mundo continua girando lá fora, muito mais complexo e fascinante do que as nossas pequenas certezas de feed.

Autor

Fernando Puhlmann

Sócio-cofundador da Cuentos y Circo, Puhlmann é um dos principais especialistas em YouTube do país, com um olhar focado em possibilidades de faturamento na plataforma e uma larga experiência em relacionamento com grandes marcas do mercado de entretenimento. Além de diretor de Novos Negócios da CyC, tem também no seu currículo vários canais no país, entre eles o do escritor Augusto Cury, do Gov Eduardo Leite, Natália Beauty e do Grêmio FBPA, sempre atuando como responsável pela estratégia de crescimento orgânico dos canais. Já realizou palestras sobre a nova Comunicação juntamente com diretores do YouTube Brasil como a abertura do 28º SET Universitário da Famecos-PUCRS, o YouPIX/SP e o Workshop YouTube Gaming Porto Alegre. Desde 2013, Puhlmann ministra cursos, seminários e oficinas sobre YouTube, tendo mentorado mais de 30 canais nos últimos anos.
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