Este é um endereço para se estar, em Buenos Aires, neste 26 de maio, às 20h30, quando for descerrada a grande cortina de veludo vermelho do Teatro Colón. O centenário teatro reabrirá as portas, depois de uma reforma de 100 milhões de dólares e que deixou enraivecidos os portenhos, privados por longos anos de sua mais venerada casa de espetáculos.
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A temporada será iniciada com “La Bohéme”, de Giacomo Puccini, seguida por concertos de Pepe Romero, Yo Yo Ma e com as óperas “Don Giovanni”, de Mozart, e “Falstaff,” de Verdi. Para quem acredita que os hermanos se ocupam apenas com futebol e tango, eis uma informação desanimadora – os ingressos estão todos esgotados, inclusive nas datas dos jogos da Seleção Argentina, na Copa do Mundo da África do Sul.
Na última vez em que estive em Buenos Aires, as obras estavam paralisadas e a imponente fachada, escondida por tapumes sujos e encardidos. Pela Calle Tucumán, entrei pela Pasaje de los Carruajes, e procurei uma entrada lateral. Os salões desertos já estavam com seus mármores, estatuária e lustres de cristais restaurados ao seu esplendor original.
Eu queria chegar até a Sala Principal, mas as portas estavam fechadas. No nível superior, me esgueirei em um dos camarotes em reforma. O local estava na semi-obscuridade, mas tive uma visão da grande sala, seus camarotes em forma de ferradura e da platéia, com suas cadeiras em dourado e vermelho.
O palco estava tomado por andaimes e tapumes, mas não se via ninguém trabalhando. E também não estava lá a grande cortina de veludo vermelho, que foi descerrada pela primeira vez para receber Enrico Caruso. Segundo o La Nación, a histórica peça estava em Milão, para limpeza e restauração, na mesma oficina que cuida dos veludos do Scala e do La Fenice, de Veneza.
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O Colón ostenta uma crônica recheada de registros notáveis. Quando foi inaugurado em 1908, depois de 20 anos de construção, causou um engarrafamento de carruagens que paralisou por horas o centro de Buenos Aires. Desde então é considerado como um dos três melhores do mundo, especialmente por sua acústica. Os argentinos gostam de lembrar que apenas o Scala de Milão e a Ópera de Viena, podem rivalizar com o Colón no quesito sonoridade. Em seu palco, de 35 metros de boca, atuaram praticamente todos os gigantes da música do século XX: Richard Strauss, Igor Stravinsky, Manuel de Falla, Arturo Toscanini, Herbert von Karajan, Maria Callas, Lily Pons, Vaslav Nijinsky, Margot Fonteyn, Rudolf Nureyev, uma lista interminável.
Por décadas, o teatro da Calle Cerrito foi motivo de uma certa inveja e frustração para os porto-alegrenses. Quando as grandes companhias européias viajavam abaixo do Equador, faziam escalas apenas no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Não era incomum, nos anos 40 e 50, que grupos de gaúchos, amantes da ópera e da música rumassem ao Prata, especialmente para ver Anna Pavlova ou Renata Tebaldi.
O Colón é superlativo como a Argentina dos anos 1900. Ocupa um quarteirão inteiro no centro da cidade, tem sete andares e, em sua construção, foram usadas toneladas de mármores de Carrara, de Verona e de granito rosado de Portugal. A platéia tem capacidade para 2.500 pessoas e o poço da orquestra abriga uma sinfônica completa. Uma atração das grandes soirées é o acendimento do lustre gigante da sala principal, que tem sete metros de diâmetro, 700 lâmpadas e pesa três toneladas. Também despertam curiosidade as antigas cabinas de las viudas – camarotes fechados, que permitiam às damas solitárias assistirem aos espetáculos, a salvo da curiosidade alheia.
Para nós, os sem-ingressos para a reabertura do grande teatro, resta o recurso de dizer como os portenhos, quando se vêm diante de algo fora do comum: “Al Colón, al Colón!”

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