O jornalismo deve responder na mesma intensidade, jamais na mesma moeda

Por Fabio Berti, para Coletiva.net

A sucessão de ataques do governo federal à imprensa, sem precedentes desde o fim da ditadura militar no Brasil, em meados da década de 1980, oportuniza uma série de temas para debate na sociedade e no meio da comunicação social. Alguns deles são: a real importância do jornalismo para o País, o nível de qualificação de quem o faz, o engajamento político de profissionais e o sempre presente nível de interesse dos empresários da área. Entretanto, desde a mais recente grosseria (a palavra decoro não tem a menor possibilidade de uso) do presidente da República direcionada à imprensa, o debate urgente é sobre a reação dos atingidos.

Ao falar sobre a repercussão das compras bilionárias de mantimentos e guloseimas pelo Palácio do Planalto a uma claque sempre "armada" em seus eventos públicos, o presidente (PR para os aficionados e quem têm político de estimação) exibiu uma caixinha do leite condensado mais caro do mercado e sugeriu aos jornalistas que o "enfiassem no rabo e fossem à PQP".

Prontamente, a atitude tosca, porém corriqueira, repercutiu por meio das redes sociais. Até que o colunista da revista Isto É Ricardo Kertzman devolvesse na mesma moeda em seu espaço na publicação on-line: "Para a PQP vá você, Jair Bolsonaro". O texto apresenta um resumo das relações políticas nada abonadoras do presidente, sua atuação desastrosa durante a pandemia e sugere que as pessoas não aceitem mais as "selvagerias" habitualmente direcionadas a quem não o venera.

Na imprensa, sempre haverá os inabaláveis, assim como os que aplaudem - sim, há pretensos jornalistas que celebram e idolatram quem atinge sua própria categoria, mesmo diante de estatísticas como as apontadas em levantamento recente da ONG Repórteres Sem Fronteiras sobre ataques de autoridades públicas à imprensa. Conforme o estudo, o mandatário do País, a mais alta autoridade segundo a Constituição Federal, é o principal agressor, seguido no ranking por sua trupe. Em 2020, das 508 agressões, 469 são atribuídas a essas pessoas.

Com quase 30 anos de atuação e, especialmente, na condição de professor e pesquisador em comunicação, não posso concordar com a maneira como o colunista da Isto É se manifestou. Nem todos, é claro, mas acredito que a maioria dos brasileiros esteja cansada de tanta barbaridade sendo feita e sendo dita. Isso, ao longo da história e de outros governos também. Mas é incontestável que jamais se presenciou tanta grosseria. Com certeza, as falas do PR seriam alvo da censura durante a ditadura que ele tanto enaltece.

O jornalismo deve responder a esse comportamento na mesma intensidade, seja investigando eventuais problemas e deslizes, seja mantendo firme seu trabalho com base na técnica e na ética. Mas jamais se apropriando do baixo calão de autoridades não mais que autoritárias. A população não merece.

Fabio Berti é jornalista e professor universitário.

 

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