Uma conversa de poucos minutos com um agente conversacional de inteligência artificial (IA) é capaz de alterar até 15% das intenções de voto. Em um país que decidiu eleições recentes por margens estreitas, esse número não é mera estatística acadêmica. É poder político real. O dado foi comprovado em experimentos controlados publicados pela revista Nature Human Behaviour, em 2025, que analisaram interações políticas mediadas por IA em ambientes digitais.
A chancela científica da Nature, em 2025, apenas deu contornos mensuráveis ao que estrategistas digitais já operam fora do alcance do debate público. A diferença, agora, está na escala, no custo e na invisibilidade. A persuasão eleitoral deixou de depender de comícios ou campanhas massivas.
Ela ocorre em silêncio, na intimidade do celular, mediada por ferramentas automatizadas. Conforme aponta relatório do InternetLab, divulgado em janeiro de 2026, cerca de 50% dos usuários do WhatsApp no Brasil já utilizam recursos de IA no dia a dia, como a Meta IA, naturalizando a interação com sistemas não humanos.
O risco central não é a mentira explícita. O perigo real é mais complexo. Chatbots e agentes digitais não precisam inventar informações para influenciar. Eles ajustam a linguagem, selecionam argumentos e constroem confiança a partir do perfil cognitivo do eleitor.
Em 2026, essas ferramentas já não apenas conversam. Elas filtram informações, organizam conteúdos e intermedeiam o que cada cidadão vê, lê e escuta. O mesmo estudo do InternetLab revela que uma parcela significativa da população admite não conseguir identificar se áudios, imagens ou vídeos recebidos em aplicativos de mensagem foram produzidos por uma IA, apesar de o WhatsApp estar presente em 99,1% dos lares brasileiros.
Aqui está a ruptura. A tecnologia algorítmica reduziu em cerca de 90% o custo da persuasão política em relação ao marketing digital tradicional de 2022. Influenciar deixou de ser privilégio de grandes estruturas partidárias. Tornou-se acessível, replicável e escalável.
O mercado já opera com os chamados “super agentes de vendas políticas”, sistemas de IA capazes de manter diálogo contínuo, personalizado e emocionalmente ajustado com milhares de eleitores simultaneamente, algo antes restrito a campanhas multimilionárias.
As eleições municipais de 2024 funcionaram como um laboratório crítico. Deepfakes, áudios sintéticos e perfis automatizados circularam com velocidade superior à capacidade de resposta institucional.
Agora, o risco é maior. Não será apenas a eleição da desinformação, mas a eleição artificial, moldada por interações privadas, personalizadas e imunes ao contraditório público. Casos graves de manipulação visual e sexualizada contra candidatas em 2024, amplamente noticiados pela imprensa e analisados pela Justiça Eleitoral, foram determinantes para o endurecimento das exigências de identificação de conteúdos sintéticos neste ciclo.
Esse cenário cria concorrência desleal no processo eleitoral. Campanhas que recorrem a agentes de persuasão automatizada e não identificada operam com vantagens ocultas sobre aquelas que expõem mensagens e se submetem ao escrutínio coletivo. Não se trata de hostilidade à inovação, mas de defesa da integridade do jogo democrático.
Para o mercado de comunicação, o alerta é direto. A eficiência algorítmica sem transparência corrói o ativo mais valioso da profissão, a confiança do público.
Alguns dirão que qualquer regulação ameaça a liberdade de expressão ou o livre mercado. O argumento falha ao inverter a lógica liberal. Mercados funcionam com regras claras e simétricas. Eleições também. A ausência de transparência favorece quem atua na opacidade e penaliza quem respeita a lei.
Com o adiamento da votação do Marco Legal da Inteligência Artificial no Congresso Nacional para fevereiro de 2026, o país entra no pleito presidencial dependente quase exclusivamente das resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sem uma lei federal estruturada.
Hoje, um eleitor pode receber um áudio persuasivo no WhatsApp sem saber se aquela mensagem foi produzida por um ser humano ou por uma estrutura automatizada treinada para explorar crenças, emoções e fragilidades informacionais. Isso não é liberdade plena. É um desequilíbrio informacional disfarçado de neutralidade tecnológica.
A contradição se agrava quando o mesmo eleitor utiliza sistemas de busca com respostas geradas por IA como principal fonte de checagem rápida, fenômeno identificado pelo InternetLab como um dos eixos centrais da exaustão informacional no Brasil.
Cabe ao TSE enfrentar esse desafio com pragmatismo institucional. A atualização da Resolução nº 23.732/2024 deve incorporar a vedação a agentes de persuasão proativa não identificados e exigir mecanismos mínimos de rastreabilidade das interações políticas automatizadas. Transparência não censura. Transparência protege. Com o Congresso em silêncio, o TSE tornou-se, na prática, a única trincheira técnica capaz de responder ao avanço dos super agentes eleitorais em 2026.
Por fim, há um elemento ainda pouco debatido no mercado. A estética da verdade. A IA já não busca mais a perfeição cinematográfica. Ao contrário, produz vídeos intencionalmente tremidos, áudios com ruído de fundo e falhas calculadas para simular vazamentos reais de WhatsApp. A imperfeição virou estratégia de persuasão. Combater a simulação do amadorismo tornou-se uma responsabilidade ética central para comunicadores, agências e jornalistas.
O debate sobre IA deixou de ser apenas técnico. Tornou-se uma questão de soberania democrática e de sobrevivência profissional. Um país que não controla os mecanismos que moldam a vontade de seus eleitores abdica, na prática, de parte de sua autonomia política. Regular a opacidade algorítmica não é frear o futuro. É garantir que ele continue pertencendo aos cidadãos, e não às máquinas que falam por eles.
Para os profissionais de comunicação que planejam, cobrem ou apenas assistem ao pleito de 2026, a provocação é urgente. No mercado da persuasão sintética, seremos arquitetos de uma democracia consciente ou apenas espectadores iniciais da nossa própria irrelevância?
Régis de Oliveira Júnior é jornalista formado pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e especialista em Inteligência Artificial pela ESPM Tech São Paulo.


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