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Quando o silêncio protege culpados e destrói reputações

De Eliana Camejo, para o Coletiva.net

Crises não nascem apenas dentro de empresas. Elas também surgem em famílias, escolas, clubes, condomínios e comunidades. Quando um ato de violência cometido por jovens ganha repercussão pública, a reação imediata de quem está próximo costuma ser tentar abafar o caso, relativizar a gravidade ou transferir a culpa para o ambiente, para a internet ou para terceiros.

Essa tentativa de contenção pode até parecer instintiva e humana. O problema é que, sob a ótica da reputação, ela costuma produzir o efeito oposto.

A sociedade atual não julga apenas o fato em si. Ela observa como as pessoas e instituições reagem ao fato. Quando a percepção pública é de proteção indevida, de privilégio ou de blindagem social, o dano reputacional se multiplica e deixa de atingir apenas quem praticou o ato. Passa a atingir o sobrenome, o círculo social, as organizações ligadas a essas pessoas e qualquer marca que seja vista como conivente ou silenciosa.

O erro clássico é tratar um episódio grave como um problema jurídico a ser contido e não como uma ruptura de valores que precisa ser enfrentada. A lógica puramente defensiva tenta reduzir exposição, evitar fala pública e ganhar tempo. Para o tribunal isso pode até fazer sentido. Para a opinião pública é frequentemente lido como falta de empatia e ausência de responsabilidade.

Reputação não se protege escondendo. Reputação se protege demonstrando valores em ação.

Assumir responsabilidade não significa abrir mão de direitos legais nem antecipar julgamentos. Significa reconhecer a gravidade do ocorrido, demonstrar compromisso com reparação e mostrar que aquilo não representa o que aquela família, aquela instituição ou aquela organização acredita e pratica.

Empresas aprendem isso do modo mais duro. Quando enfrentam uma crise e optam por notas frias e técnicas, cheias de condicionais e negativas, tendem a agravar a indignação social. Já quando reconhecem o impacto causado, pedem desculpas quando cabível e anunciam medidas concretas de correção e prevenção, começam a reconstruir confiança.

No âmbito privado a lógica é a mesma. Tentar usar status social, influência ou bons advogados como escudo simbólico gera um efeito corrosivo. A mensagem implícita percebida é a de que alguns podem mais que outros. E essa percepção é uma das maiores ameaças reputacionais possíveis, porque toca em algo profundo da noção de justiça coletiva.

Há também um ponto pedagógico. Jovens aprendem mais com as consequências assumidas do que com problemas varridos para debaixo do tapete. Quando adultos transformam um ato grave apenas em um inconveniente de imagem a ser administrado, perdem a oportunidade de ensinar responsabilidade real.

Gestão de reputação não é maquiagem. É alinhamento entre discurso e atitude em momentos de pressão. É entender que proteger a imagem a qualquer custo pode destruir exatamente aquilo que se queria preservar.

Em um mundo hiperconectado, onde tudo é registrado, comentado e compartilhado, a estratégia mais segura deixou de ser esconder. A estratégia mais segura é encarar, corrigir e reparar. Porque, no fim, a reputação não é definida pelo erro inicial, mas pela forma como se responde a ele.

Eliana Camejo é conselheira de Administração do IBGC, especialista em governança corporativa, gestão de reputação corporativa executiva e gestão de risco e crise, além de estrategista de Comunicação.

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