Cinco Perguntas

Cinco perguntas para Katia Marko

Katia Marko é jornalista, editora-chefe do Brasil de Fato RS, vice-presidenta do SindJoRS e coordenadora-geral do FNDC - Crédito: Arquivo Pessoal
Jornalista assumiu neste ano a coordenação-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação’ (FNDC)

Quem é você, de onde vem e o que faz? 

Chamo-me Katia Marko, nasci em Porto Alegre, no dia 6 de julho de 1970. Ano que o Brasil ganhou pela primeira vez a Copa do Mundo, no México, com Pelé, Jairzinho, Tostão e Gerson. Momento embalado pelo slogan ‘Brasil, Ame-o ou Deixei-o’, criado durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, entre 1969 e 1974. Cresci em Gravataí. Aos 17 anos, entrei na Unisinos para cursar Jornalismo, em 1988. Me formei em agosto de 1994.

A partir do Movimento Estudantil no Diretório Acadêmico Tupac Amaru, acabei participando da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (Enecos). Viajei, participei de encontros, congressos e isso foi me despertando para esse lado do Jornalismo enquanto ativismo e militância. Minha monografia foi sobre o ‘Jornal Sem Terra’, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – orientada por um professor que também possuía vínculo com os movimentos sociais -, o que me despertou mais ainda, porque a história do Movimento Sem Terra é muito forte e sempre esteve aliado desde a sua criação com a Comunicação.

O meu primeiro emprego foi como assessora de imprensa do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Assufrgs) em 1995. Em 2000, comecei a assessorar a Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS) e em 2003, montei a empresa Engenho Comunicação e Arte (assessoria de Comunicação sindical e popular do Rio Grande do Sul), por onde atendi boa parte dos sindicatos gaúchos. Participei da cobertura através da Rede Social Mundial, dos três primeiros Fóruns Sociais Mundiais, em Porto Alegre.

Conheci o ‘Brasil de Fato’ antes mesmo do nascimento dele. Entre 2002 e 2003, era assessora da CUT/RS e, por isso, participei das primeiras reuniões em que se discutia o jornal aqui no estado. As reuniões, que ocorriam na Federação dos Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, contavam com a presença do presidente da entidade, Milton Viário, e do Miguel Stédile, um dos coordenadores do MST. Em 2003, estava no lançamento que aconteceu no Fórum Nacional Mundial e, desde o início, colaborei com muitas matérias para o ‘Jornal Nacional’, sempre de forma militante. Desde 2018, quando lançamos a redação do ‘Brasil de Fato RS’, sou a editora. Hoje atuo como editora-chefe da redação, que conta com 16 profissionais aqui no estado.

Também sou vice-presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS), integro o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), que atua com formação em comunicação sindical e popular, o coletivo Querela – Jornalistas Feministas, e desde setembro sou a coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Também coordeno a comunicação da Campanha Tributar os Super-Ricos, em atuação desde dezembro de 2020, e que distribui toda sexta-feira a tirinha da Nadira, uma personagem criada pelo cartunista Aroeira. E para além da vida profissional, sou mãe de duas mulheres, uma de 31 anos e outra de 21 anos, para quem quero um mundo sem violência e com justiça.

2- Como foi a escolha pelo Jornalismo? 

Foi natural! Gostava de ler e escrever desde criança. Era curiosa. Nas ‘Diretas Já!’, mesmo longe dos acontecimentos, e ainda com 13 anos, me sentia instigada, queria participar. Meu pai era metalúrgico, participava do sindicato, fã de Getúlio Vargas e Leonel Brizola, ele me ensinou a amar os livros. Era com quem debatia política e buscava entender o mundo. Essa sede por conhecimento me levou ao Jornalismo, mesmo que minha mãe quisesse que eu fizesse a faculdade de Engenharia Química, que estava em ascensão na época.

Trabalhava o dia todo e estudava à noite para poder pagar a universidade privada. Foram 6 anos de curso. Pai metalúrgico, mãe costureira. Era a primeira da família a entrar na universidade, mas todo o esforço valeu muito a pena. Amo ser jornalista. Me sinto plena contando histórias do povo. E sou muito feliz com o caminho que escolhi para dedicar à minha vida.

3 – Neste ano assumiu a coordenação-geral do ‘Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação’ (FNDC). Como tem sido a experiência? 

A nova gestão assumiu em setembro e estamos na fase de planejamento. Os desafios são muito grandes. Eu atuo no FNDC desde 1992, quando era ainda estudante. Conheci o jornalista gaúcho Daniel Herz, uma referência na luta pela democratização da Comunicação no nosso país, e um dos fundadores do FNDC.

O Fórum nasceu nos anos 1980 como movimento social pela democratização da Comunicação. Nessa época, teve papel essencial no embate político, institucional e teórico sobre o setor. Foi atuante na finalização dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte que preparava a nova Constituição Federal. Ao final, foi instituído o capítulo V da Carta Magna, com artigos que tratam especificamente da Comunicação. O resultado da Assembleia Constituinte não foi tão promissor quanto as expectativas do movimento à época.

Então, as entidades de classe que formavam a Frente Nacional por Políticas Democráticas de Comunicação (FNPDC) decidiram que era preciso manter um esforço permanente de mobilização e ação na busca de políticas que democratizassem de fato a área.

Assim, criaram, em 1991, a associação civil FNDC, com atuação no planejamento, mobilização, relacionamento, formulação de projetos e empreendimento de medidas legais e políticas para promover a democracia na Comunicação. Quatro anos depois, no dia 20 de agosto de 1995, o FNDC passou a existir como entidade.

Desde então, há mais de 30 anos, vem atuando nas principais pautas da política de Comunicação. E é esse legado que assumimos, com muita responsabilidade e comprometimento com a defesa de uma comunicação mais plural, em que todas as vozes possam ter o direito humano à comunicação, o que inclui também a propriedade dos meios e o financiamento para mantê-los.

4 – Neste período de atuação quais têm sido os principais desafios e o que planeja para os próximos anos? 

Nós vimos o contexto global de intervenção política e tecnológica externa (colonialismo digital) e a articulação de uma extrema direita mundial, com características fascistas, que se utiliza das plataformas digitais para disseminar violência, ódio e desinformação, como grandes desafios. Estas são a força motriz que obriga o FNDC a se reorganizar internamente e a priorizar a luta pela regulação e soberania digital como medida de defesa da própria democracia.

O Plano de Ação aprovado na Plenária do FNDC para 2025-2027 possui dois eixos interdependentes de ação, ambos visando enfrentar a complexidade da conjuntura política.

  1. Organização e Fortalecimento Interno

A prioridade número um é a organização e o fortalecimento das instâncias do FNDC, incluindo os comitês locais e o Conselho Deliberativo. Para isso, vamos organizar caravanas pela democratização da Comunicação em 12 estados em 2026, com debates sobre o direito humano à comunicação e à cultura.

  1. Fortalecimento da Incidência Junto à Sociedade

A segunda prioridade é o fortalecimento da incidência junto à sociedade, o que abrange desde a mobilização e articulação em redes até a incidência direta junto a governos e ao Congresso. Essa incidência concentra-se em três grandes frentes:

a. Regulação Digital e Soberania

A regulação e o enfrentamento do poder das big techs são centrais, pois a influência destas empresas invade a privacidade e estimula a violência e o ódio na sociedade, colocando a democracia em xeque.

  • Regulação de Plataformas: garantir a regulação democrática das plataformas e dos fluxos de dados para impedir abusos, assegurando os direitos da população. Isso inclui cobrar do Governo Federal a regulação da atuação das plataformas digitais para combater a desinformação, o discurso de ódio, a violência na internet e práticas de mercado abusivas.
  • Soberania Digital: defender uma política nacional de soberania digital e tecnológica, estruturada em três pilares: infraestrutura, desenvolvimento tecnológico e regulação.
  • Vigilância e Privacidade: exigir a regulação dos mecanismos de vigilância eletrônica e de reconhecimento facial, que crescem sem regras e sem respeitar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).b. Combate aos Monopólios e Defesa da Liberdade de Expressão

O FNDC priorizará a regulação da mídia tradicional e o combate ao extremismo e desinformação:

  • Monopólios: defender a regulamentação da proibição da constituição de monopólios e oligopólios na Comunicação, e desenvolver uma proposta de legislação convergente para o setor de mídia tradicional e da internet.
  • Regulamentação da Radiodifusão: continuar a defender a regulamentação do Capítulo V da Constituição Federal.
  • Denúncia de Violações: seguir denunciando as violações à liberdade de expressão e a violência contra jornalistas e profissionais de Comunicação promovida por agentes do Estado (federal, estaduais e municipais).
  • Educomunicação: trabalhar pela implementação de políticas e ações de educação midiática e educomunicação, aproximando educadores, crianças, adolescentes, jovens e idosos.c. Fortalecimento da Comunicação Pública, Comunitária e Alternativa

É urgente a construção de uma comunicação pública que garanta a diversidade e que priorize as mídias alternativas e inclusivas:

  • Reconstrução da EBC: manter as ações de defesa e reconstrução da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), e lutar pela instalação de 26 emissoras abertas de TVs/rádios nas capitais.
  • Financiamento da Mídia Alternativa: lutar para que pelo menos 10% da verba pública destinada à Publicidade na mídia seja orientada para financiar a EBC e a mídia alternativa e comunitária. Além disso, lutar pela criação de um Fundo de Apoio e Desenvolvimento para as Rádios e TVs Comunitárias, mídia alternativa e popular.
  • Universalização do Acesso: cobrar a garantia da universalização do acesso à internet por parte dos governantes e políticas públicas federais, com base nas formulações do movimento de Democratização da Comunicação e Direitos Digitais.
  • Inclusão Digital: reivindicar estrutura e meios para incluir digitalmente povos originários, indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
  • Conferência: reivindicar do governo a realização da II Conferência Nacional de Comunicação (II Confecom).

Em resumo, a prioridade máxima é construir uma organização interna forte e unificada para, então, atuar de forma decisiva na regulação dos monopólios (midiáticos e digitais) e na construção da soberania tecnológica do País, garantindo que as tecnologias sirvam à democracia e não à subordinação.

5 – Quais são os seus planos para daqui a cinco anos?

A luta pela democratização da Comunicação é um processo cultural que não se esgota em pouco tempo. Eu já venho nessa luta há mais de 30 anos, outros vieram antes de mim. É crucial enfrentar a concentração dos meios de Comunicação e os impactos na diversidade de opiniões.

A soberania digital é o novo campo de batalha: assim como uma nação deve controlar seus portos, deve controlar seus “cabos de dados” e “centros de processamento” para não permanecer como um mero inquilino em uma infraestrutura controlada por terceiros.

O esforço é garantir que as tecnologias sirvam à autodeterminação e ao desenvolvimento nacional, e não à subordinação a interesses estrangeiros e corporativos.

Portanto, serão anos de muito debate e construção de alternativas para fortalecermos a nossa democracia e garantir espaço para todas as vozes em pé de igualdade.

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.