Ouvi muita coisa sobre Roberto Bolaño antes de ler “Os detetives selvagens”. Muita coisa boa. Era o melhor entre os herdeiros de Borges e Cortázar, por exemplo. Ou que era genial ou beirava à genialidade. A única coisa má que ouvi foi uma declaração da Isabel Allende, o que tornava, devido a um processo de alquimia simples, numa coisa boa.
Também tinha ouvido muita coisa sobre “Os detetives selvagens”. Muita coisa boa. Era o romance que Borges não pôde escrever. Era a volta do Cortázar de “Rayuela”. Naturalmente não acreditei em nada disso, porque conheço as vuvuzelas da crítica. Mas mesmo assim fiquei curioso e peguei “Os detetives selvagens” não com o ânimo de um detetive selvagem, mas, como sempre, com a disposição de ser mais um macaco no auditório. Meu sonho como leitor é ser tiete, é levar para a famosa ilha deserta uma biblioteca inteira além da Charlize Theron.
Gostei dos “Detetives” mesmo não os achando tão selvagens assim. Borges, sob toda aquela cultura e bom humor, talvez não fosse selvagem, mas era cortante. Cortázar, antes de se meter em política, perdendo em senso lúdico e sarcasmo, idem. Mas Bolaño contou uma enfiada de boas histórias, boas o bastante para nos manter presos do começo ao fim. Mais: o livro tem uma energia fabulosa, talvez a melhor coisa dele, junto com um jeito capcioso de narrar. Sente-se no texto, em qualquer linha, que Bolaño conhece aquela gente, conhece os lugares, que ruminou longamente tudo aquilo e mal controla as ganas de falar. Sente-se a autobiografia, mas a astúcia do Bolaño mantém tudo na distância certa e o romance entra nos eixos sem que se note esforço algum. Agora, pra achar os “Detetives” geniais, é preciso estar até aqui — passe o dedo indicador na altura das sobrancelhas – com a mediocridade da literatura latina das últimas décadas.
Então, quando ouvi que “2666” era a obra-prima de Bolaño, esfreguei as mãos: mesmo que estivesse apenas um centímetro acima dos “Detetives”, valia de sobra o investimento. Depois, é preciso considerar, um livro com mais de mil páginas impressiona. Até eu, velho leitor calejado, me impressiono. Um cara que se empenha em escrever um livro de mil páginas não pode deixar por menos: veio para arrasar. Foi, então, pronto pra ser arrasado que comecei a ler “2666” (no original, graças ao Fraga, El Rey del Twitter).
A parte dos críticos
O romance é dividido em cinco romances. Vamos falar dos dois primeiros, “A parte dos críticos” e “A parte de Amalfitano”. Se a ligação entre os cinco se mostrar como a dos dois primeiros, não sei se se pode falar em ligação, mas apenas num truque bastante frouxo pra se conseguir um romance de mil páginas e impressionar os que se impressionam com romances de mil páginas. Mas tudo bem, eu aceito o jogo. Não estamos mais no século dezenove. Mesmo que, no fundo, eu sinta que as partes deveriam se iluminar mutuamente, com confirmações insuspeitas e contradições traiçoeiras.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi a falta de energia. Bolaño não escreveu, redigiu, me entende? O que aconteceu? Bolaño se gastou nos “Detetives”? Efeitos colaterais da doença que o matou antes de acabar “2666”? Ou simplesmente Bolaño lidava com gente que não conhecia direito? Porque temos a impressão, página após página, de que Bolaño vê os quatro críticos que buscam o misterioso escritor alemão, Beno von Archimboldi, através de um véu que os turva a ponto de os deixar indistintos. Será que Bolaño, como muitos outros escritores, quando se afasta da própria vida, quando tem de inventar, fica meio perdido?
Na falta de energia, fiquei à espera de boas histórias. Mas nem isso há. Bolaño ensaia uma sátira ao meio acadêmico. Dá em nada. Mal a gente consegue enxergar as universidades e seus departamentos de literatura. Faltam detalhes, faltam intrigas.
Aí ele se agarra ao amor do crítico francês e do crítico espanhol pela crítica inglesa, com o crítico italiano ao fundo, um observador silencioso. Trata-se de um jogo com cartas marcadas. É evidente desde as primeiras páginas o que vai acontecer. Pra piorar, não há mulher nenhuma, com alguma importância, na vida dos críticos, ou um homem na vida da crítica. Tudo é convenientemente vazio, pra não atrapalhar a trama.
É um dos amores mais sem graça que já vi — não conseguimos acreditar nos personagens, com exceção talvez da inglesa, que me parece a mais nítida, com seus inúmeros casos e seu desapego. O italiano também parece nítido devido a um truque baixo: anda numa cadeira de rodas, sofre de uma doença degenerativa. O que vai por dentro dessa gente? Nada ou muito pouco. Como a paixão comum deles é o autor alemão, esperava-se que a visão deles da obra do dito autor os distinguisse, os revelasse, já que as ações não fazem isso. Mas como Bolaño também não entra em detalhes sobre os livros do alemão, não temos nada. Não existe a crítica dos críticos como não existe a obra criticada, fora um monte de títulos.
Abre parêntese. Borges não apenas inventava um autor, com sua biografia, como inventava os livros desse autor. Dava um resumo do enredo e das críticas. Não tinha preguiça de inventar. Pelo contrário, ele tinha prazer em inventar. Como gostava de dizer, citando Stevenson, a arte é um brinquedo, mas temos de brincar com a seriedade de uma criança. Fecha parêntese.
Li em algum lugar que o final dessa primeira parte era surpreendente. Gozado. Eu esperei o final apenas o namoro múltiplo começou. Pior: temi, linha a linha, que o Bolaño apresentasse esse final. Veja, a inglesa, após ir pra cama com o francês e o espanhol ao mesmo tempo, fica deprê, tem a fantasia de se tornar uma mendiga e vagar por Londres. A personagem que enxergamos o tempo todo tem uma virada de folhetim: vai pra Itália viver com o inválido. Suspirei profundamente. Nos velhos romances, a mulher que dava um mau passo, como se dizia nesses tempos remotos, se arrependia e entrava para um convento. Agora, viver feliz com um inválido tem um toque da morbidez do Nélson Rodrigues, não? Talvez não. Talvez se pareça mais com as telenovelas mexicanas.
Nessa parte há um personagem que me parece perfeito: o escritor, burocrata e meio bandido mexicano conhecido como El Cerdo. Espero que Bolaño estivesse se vingando de algum conhecido. Bom, também há outros personagens, igualmente pequenos, que fazem uma ponta aqui e ali, que estão muito bem. Bolaño parece não ter jeito para personagens que encaram maratonas, como nos livros de um Dostoievski, por exemplo, se dando melhor com personagens de corridas de cem metros rasos (tipo Dickens, por exemplo), coisa que ele explorou muito bem nos “Detetives”, que, muitas vezes, parece uma sucessão de contos ou noveletas. É paradoxal num escritor que aposta em milhares de páginas e acha “Metamorfose” um exercício de esgrima quando o combate verdadeiro se trava em “O processo”. Mais uma vez o que um escritor pensa ou deseja tem pouco a ver com o que o talento dele é capaz.
A parte de Amalfitano
“A parte de Amalfitano” começa muito bem. Aqui Bolaño vai pra cima, com tudo. A história é boa e a personagem, a mulher do Amalfitano, uma bicho-grilo daquelas, está de corpo inteiro. Mas logo que ela sai de cena, sobra Amalfitano e a filha. Tudo se esvai, tudo fica ralo de novo. Bolaño não sabe o que fazer com o professor. Não tem nada pra contar. Não acontece nada com ele. Bolaño nem fala da relação do pai com a filha, coisa que tinha de ser explorada porque os dois estão juntos na maior parte do livro.
Aí o que acontece? Amalfitano começa a ouvir vozes. Depois, como Horácio Oliveira em “Rayuela”, lendo a obra de Ceferino Piriz numa madrugada insone, começa a ler um livro de um maluco, citando e comentando vários trechos. Sabe o que parece? Enchimento, puro e simples. Não interessa se esses trechos, isolados, são bons ou maus (na verdade não são bons, principalmente os papos com o fantasma, muito tediosos). Eles simplesmente parecem encaixados a marteladas, coisa que jamais acontece com os devaneios de Horácio Oliveira, ou com as buscas selvagens dos detetives. Mas há ainda, não só nessa parte, vários trechos com cenas cotidianas que não acrescentam coisa nenhuma, descrições com minúcias de gestos ou paisagens. A troco? Chegar mais rápido às mil páginas?
Sim, nessa parte temos a loucura com a morte ao fundo. Mas e daí? Depois da entrada triunfal da mulher de Amalfitano, esperávamos ser levados ao nocaute. Mas saímos dela muito lampeiros, mais ainda por poder recuperar uma palavra como lampeiro. Talvez seja bom notar que se a história de Amalfitano fosse narrada num conto, seria ótima. O que a estraga é a tentativa de fazê-la render mais que isso.
Romance aberto
O engraçado é ver as vuvuzelas da crítica tentando justificar qualquer colagem que Bolaño faz: trata-se de um romance aberto. Sim, cabe muita coisa num romance aberto, fragmentos soltos e lacunas imensas. Mas veja os próprios “Detetives selvagens”. Os episódios que parecem soltos giram em torno de um centro, convergem para certos personagens, são aproximações feitas de outros ângulos. As lacunas estão lá por astúcia narrativa, são um meio de confundir e instigar o leitor. Nessas duas primeiras partes de “2666”, as lacunas me pareceram apenas lacunas, o autor sem fôlego, a matéria acima de suas forças.
Se estou enganado, alguém me explique a ausência da obra de Beno von Archimboldi, por exemplo. Mesmo que ela fosse reservada para a parte de Archimboldi (não é, essa parte trata da formação do escritor), continuamos sem a visão dos críticos, que são um bando de águas mornas. Um Borges inclusive arrumaria várias contradições muito sutis entre todos, críticos e autor, sem falar em várias trapaças para enganar os leitores. Ou, já que Bolaño leu “Rayuela” com fervor no seu tempo, por que não temos algo semelhante às discussões do Clube da Serpente sobre a obra de Morelli? Ou mais. “Rayeula” é morelliana, ou pelo menos tenta ser o romance que Morelli deseja, o romance que os personagens discutem, o romance que busca escapar das acusações que estão sendo feitas aos romances. “2666” seria alguma das propostas de Archimboldi? Jamais saberemos, pelo simples fato de que a literatura de Archimboldi é uma das lacunas intransponíveis de “2666”.
Que fique bem claro: não estou exigindo que Bolaño dê uma de Borges ou Cortázar. Estou exigindo que ele chute a bola que ele mesmo deixou quicando na área. Azar do Bolaño se Borges e Cortázar marcaram seus gols em jogadas semelhantes. Azar também das vuvuzelas da crítica que vivem comparando Bolaño com Borges e Cortázar.
Linguagem e faxina
Pra encerrar, a linguagem. Muitas vezes Bolaño se deixa levar por lugares-comuns ou imagens de gosto duvidoso. Gosto duvidoso? Por que a gente diz isso justamente quando tem certeza do mau gosto? Não anotei exemplos de pura preguiça. Depois, não são uma enxurrada incontrolável. Noto o fato, mais uma vez, por pensar em Borges e Cortázar, autores que fizeram uma verdadeira faxina em matéria de linguagem. Acho que a geração que cresceu lendo esses dois, como a de Bolaño, tem o dever de seguir empunhando a vassoura. Mais ainda o Bolaño que, na faxina que fez na literatura latina, salvou poucos autores, entre eles adivinha quem?
Pretendo ler “2666” até o fim. Há inúmeras boas cenas, há os personagens que fazem pontas e há, claro, a coragem e a inquietação do Bolaño que ilumina muitas páginas. Isso é mais do que vários brasileiros incensados são capazes de dar.
Ps: A parte de Fate
Nesse meio tempo, acabei lendo a terceira parte, “A parte de Fate”. Um jornalista de Nova Iorque, de uma revista feita por e para negros, após perder a mãe, vai a Detroit entrevistar um dos fundadores dos Panteras Negras e em seguida ao México, cobrir uma luta de boxe. Inúmeras andanças, inúmeros personagens. Mais uma vez estamos como que num voo de reconhecimento, nunca num mergulho. Mais uma vez Bolaño fica pulando de um personagem para outro, sem desenvolver as situações que propôs. Mais uma vez temos a impressão de um contista se esfalfando pra escrever um romance.
Um exemplo? O jornalista às vezes pensa na mãe morta, na solidão. Nada mais. Não sabemos quem foi a mãe, nem como ela se dava com o filho, nem como o filho se dava com ela. Sabemos que ele sentiu o golpe porque duas e três vomita. Me parece pouco encher com umas vomitadas a relação de um filho com sua mãe.
Já ouço os protestos: que não compreendi, que meço um romance moderno com uma régua que serviria pra Stendhal ou Flaubert. Mas não estou pedindo uma trama fechadinha, com todas as consequências exploradas. Estou pedindo apenas algo além da fachada. Escrevemos hoje de modo diferente, sim, até os velhotes da academia sabem disso. Mas ainda escrevemos sobre a mesma coisa de sempre: pessoas. Quando estas faltam, ou passam feito um foguete pela página, não deixando impressão nenhuma, algo não anda bem.
Talvez Bolaño amontoe uma coleção de fragmentos apostando no acúmulo, que esse acúmulo, de algum modo, aponte pra uma realidade múltipla e inabarcável. Mas pra que isso funcionasse, esses fragmentos deveriam ser brilhantes, ou significativos, reveladores, o que raramente acontece. A maioria deles se dilui quase que no instante em que lemos.
Pra piorar, há descrições minuciosas de coisas que caberiam apenas em romances do século dezenove e, note-se, não nos melhores. Eu preferiria alguns detalhes sobre a vida do jornalista e da sua mãe em vez de páginas e mais páginas sobre a plateia nos instantes que antecedem uma luta de boxe. Esse longo trecho não passa de crônica e bastante tediosa, por sinal. O exemplo contrário de que me lembro se chama “La noche de Mantequilla”, um conto do Cortázar sobre a execução de um militante por seus companheiros durante uma luta de boxe. Trata-se de uma aula de literatura: a descrição de todo o ambiente está integrada à ação, são indissolúveis, não se pode pular uma linha. No caso do Bolaño podem-se pular umas quatro páginas sem se perder absolutamente nada.
Outra coisinha: pra um livro que despreza um enredo fechado, a troco de que entram coisas como a ida do jornalista à entrevista com o suposto serial killer de Santa Teresa? A reportagem é de uma mexicana com quem ele falou alguns minutos. Mais: se ele está fugindo com a filha de Amalfitano, por que correr esse risco? Contra a psicologia mais rasteira, contra a verossimilhança mais rasteira, ele vai sabe por quê? Porque Bolaño quer que a gente veja a descrição do assassino e pense que se trata de Archimboldi ou de um seu irmão e assim fiquemos interessados sobre a próxima parte, “A parte dos crimes”. Tudo isso lembra uma dessas cenas de fantoches dos piores filmes de Hollywood.
Pra não ficar com uma má impressão de Bolaño, pretendo ler os livros anteriores, os que lhe deram fama. Quanto ao “2666”, se tiver alguma coisa boa a dizer, voltarei, com apitos e tambores.

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