Os editores, quando estão sobrecarregados ou desejam terceirizar a responsabilidade de uma recusa quase sempre certa, têm gente que lê os originais e escreve um parecer. Faz parte do jogo não entregar esse parecer ao autor ou, no caso de entrega, ele ser anônimo. Entende-se: não está no gibi a quantidade de autores que poderiam criticar o parecerista de um modo mais contundente, usando um 38, uma faca ou um cacete de bom tamanho, ou simplesmente tornando complicada a vida social do sujeito com um bom boca a boca. Há a contrapartida, como sempre: o anonimato propicia uma coragem típica de anonimato, pra não falarmos de leviandade, que se traduz em dizer qualquer coisa sem a necessidade de argumentos legíveis. Um escritor me confessou uma vez que colava um fio de cabelo entre duas páginas, uns dois ou três capítulos antes do fim, pra ver se o parecerista lia o livro todo. Quando o original era devolvido, o cabelo estava sempre lá.
Na minha longa experiência de recusado, descobri que é inútil tentar argumentar com um editor ou os leitores dele, porque entre uma avaliação literária e uma comercial cabem toneladas de palpites, além da incompetência e prepotência mais comuns do que se pensa ou de um fígado em adiantado estado de rancor. No começo eu tinha a ilusão de que os pareceres poderiam me servir pra alguma coisa além de me fazer pensar coisas escabrosas sobre o passado da mãe do parecerista. Por exemplo, aprender alguns truques e melhorar meus livros. Mas acontece com a maioria dos pareceres o que acontece com a quase totalidade das críticas, nem falemos das resenhas: ficamos sabendo mais sobre o leitor que sobre o livro. Isso pode ser interessante de um ponto de vista psicológico, claro, mas sei lá.
Qualquer escritor tem uma porção de histórias hilariantes ou tristes. Eu também. Vou contar três — não as melhores, apenas as contáveis.
Uma do tipo mais comum: contos infantis recusados por seis ou sete editoras foram aceitos pela Companhia das Letrinhas, dando origem a uma coleção. Uma de tipo menos comum: romance recusado ganha prêmio em que o editor e o parecerista recusantes são do júri e votaram com grande entusiasmo. Uma, se não incomum, pelo menos esquisita: assinei um contrato com uma grande editora para uma série de histórias de bruxa, mas, devido a problemas de edição, acabei me irritando e pedindo a rescisão. A série saiu por outra editora dali uns tempos. Aí, uns dez anos depois, recebi uma cartinha da grande editora. É isso mesmo: recusavam minha série.
Os escritores em geral levam essas coisas para o lado pessoal. É mais fácil, sei, e dá mais satisfação também, o perseguido, o martirizado. Mas a verdade me parece mais besta e intratável, com uma grande participação do acaso. Contra o acaso estão aqueles escritores que, como disse o Paulo Hecker Filho, a gente não sabe quando escrevem, porque dedicam um tempo assombroso montando uma grande teia afetiva que liga autores, editores e resenhistas. Deles será o reino dos céus, onde entrarão de fardão e espadim, mesmo que figuradamente às vezes.
Aspas para Alcir Pécora
Dia desses, no caderno Prosa & Verso, de O Globo, o professor da Unicamp disse: “Sem produção, não há arte: não há nenhum outro valor simbólico, de representação, que substitua o objeto. De outra maneira, a literatura está no campo da composição, em nenhum outro. Não há atitude, comportamento ou opção ideológica que permita saltar sobre os mecanismos da composição. Acho o menosprezo da produção objetiva, em favor do volume expressivo e representativo um grande atalho falho da produção contemporânea. Assim, para mim, rigor técnico significa a radicalidade construída dentro do discurso. Atitude resolve o problema do roqueiro, não resolve a questão da literatura”.
Borges e Sábato de novo
Nos anos setenta, saiu um livro de Sábato em que constava na capa: “Sábato, o rival de Borges”. Quando contaram a Borges, ele achou graça, jamais pensaria botar na capa de um livro seu “Borges, rival de Sábato”.

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