Saíram os indicados ao Oscar e as redes sociais, com seus intrépidos especialistas em tudo, inclusive em cinema, já decretaram suas preferências. O problema é que não fica somente no plano das preferências. Existe todo um exame que relativiza qualquer lista de premiação e que, de forma consciente ou não, puxa para si um veredicto quase definitivo sobre algo que deveria ser subjetivo. Menos, é claro, para os especialistas em tudo.
Respeito profundamente os críticos cinematográficos, os cineastas, os diretores e realmente aqueles que entendem do assunto. Um filme é composto por diversos aspectos: roteiro, direção, atuação, fotografia, direção de arte, trilha sonora, mixagem e edição de som, figurino, maquiagem, enquadramentos, relevância cultural. Ou seja, é algo tão técnico que muitas coisas escapam à superficialidade de quem assiste. Evidentemente há um pensamento natural que consegue identificar ou que é um filme ruim e o que é um filme bom. Entretanto, quando há manifestações dos fãs de cinema – ou dos nem tão fãs assim – sobre justiças e injustiças sobre as indicações, prepondera na opinião o subjetivo, o gosto pessoal.
Não é errado. Eu tenho aqui os meus favoritos de todos os tempos. Por exemplo, gostei mais de “Era uma vez em Hollywood” que de “O Irlandês” por gostar das referências colocadas, do estilo Tarantino, da história contada. E gostei de “O Irlandês”, embora tenha achado um pouco longo. Mas eu não saberia dizer se é justa ou não uma indicação para o Oscar de mixagem de som ou de direção de arte. Não com detalhes.
Entre os especialistas em cinema que nunca operaram uma câmera ou não saberiam dizer algum filme de Fellini, Pasolini, Bergman, Capra ou Welles, os injustos da vez foram, em geral, não indicados em categorias que supostamente demonstrariam preconceito ou conservadorismo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. O problema é que para entrar um filme ou um ator ou um diretor entre os indicados, precisa sair alguém. A base de comparação fica a seguinte: o filme que eu gosto x o filme que eu não vi. Os nossos especialistas não viram filmes como Jojo Rabbit e 1917. Mesmo assim, conseguem descrever – com a autoridade máxima de saber tudo sobre tudo por causa das redes sociais – onde há uma injustiça nisso.
Os dois episódios mais marcantes envolvem Lupita Nyong’o e Adam Sandler, os chamados “esnobados” pela Academia. Das cinco atrizes indicadas, apenas duas entraram no circuito brasileiro: Scarlett Johansson, por “História de um Casamento” (disponível na Netflix) e Saoirse Ronan, de “Adoráveis Mulheres” (em cartaz nos cinemas). “O Escândalo” (Charlize Theron indicada), “Judy: Muito além do arco-íris” (Renée Zellweger indicada) e “Harriet” (Cynthia Erivo indicada) não estrearam no Brasil. A não ser que a pessoa seja um ninja (ou um especialista de verdade) dos filmes, como dizer que foi um absurdo Lupita Nyong’o não ter sido indicada sem ter visto o trabalho de três das cinco indicadas? O filme Uncut Gems, que tem Adam Sandler como protagonista, ainda não estreou – é um filme da Netflix. Mas a massa especialista que não viu mas sabe tudo já decretou: foi uma injustiça sua ausência entre os indicados.
A arte é subjetiva. A gente gosta ou não gosta de um filme, de uma música, de um livro ou de uma peça de teatro muito mais por um conjunto de valores, crenças e vivências pessoais que por questões técnicas – algo que, veja só, é coisa para especialista. Eu leio alguns especialistas e me divirto com outros. Ser cinéfilo não é sinônimo de ser especialista. Isso serve para qualquer área. Mas, nas artes, fica evidente a chatice que toma conta da gente: a diversão não está mais no filme; estar em falar bem ou mal do filme. De preferência, fingindo que entende do assunto.
