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A Borges, com humor

Não lembro quem notou que Oscar Wilde dizia coisas profundas como se fossem leviandades. Acho isso ótimo. Das duas, uma, ou as duas mesmo? …

Não lembro quem notou que Oscar Wilde dizia coisas profundas como se fossem leviandades. Acho isso ótimo. Das duas, uma, ou as duas mesmo? Wilde não dá a mínima se for mal interpretado e demonstra uma total confiança na inteligência do leitor. Pra isso, é preciso ter cabelo no peito, como dizia meu avô. Talvez também seja preciso ser inglês. Ao menos dizem que os ingleses preferem uma piada fraca a piada nenhuma.

Mas nós, brasileiros? Não há mês que não se veja um resenhista ou acadêmico machão dizendo admirar autores como Machado de Assis e Jorge Luis Borges, em que o humor e a ironia não podem ser separados da linguagem e da visão de mundo. Mas na hora do bem bom, quer dizer, na hora em que o resenhista ou acadêmico escreve seu próprio livrinho, faz uma pose das mais compenetradas ou mesmo das mais soturnas, louco de medo de não ser levado a sério, até ou principalmente quando lida com trivialidades. Não é por nada. O cara manja seus colegas.

Conheço pouca gente capaz de louvar o humor e a ironia de autores desconhecidos ou pouco conhecidos. Louvar o humor de gente morta há décadas ou séculos, já com meio palmo de poeira em cima que ateste sua classicidade, ou escritores como Borges, com uma fama acachapante de erudito, cego ainda por cima – porque, cá entre nós, é difícil pensar num cego gaiato —, é barbada, não? Errado. Andei dizendo por aí que o Dom Quixote era um dos grandes livros de humor de todos os tempos e houve quem me repreendesse: você está diminuindo o livro de Cervantes, porque Dom Quixote tem muito mais que humor. Ok. Mas esse muito mais seria outra coisa, se Cervantes não fosse o gozador que é. Tudo, nele, passa pelo filtro do humor, muitas vezes um humor de cavalariço, como definiu seu tradutor inglês, John Rutherford. Eu estaria diminuindo o Dom Quixote se o humor fosse apenas essa coisa que se vê nos programas da tevê brasileira ou nas chamadas comédias universitárias de Hollywood.

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 Quando se fala em Borges, fala-se em labirintos, punhais, espelhos e tigres. Labirintos, punhais, espelhos e tigres se tornaram propriedade particular de Borges. Mesmo quem nunca leu Borges sabe disso. Se eu me atrever a escrever um conto em que entre um espelho ou um tigre corro o risco de ser chamado de imitador. Ou de borgeano, mas com aquele tom que bota a palavra entre aspas.

Outra coisa: quando se fala em Borges, fala-se do contista fantástico ou de violências sulinas e do escritor com preocupações metafísicas. Muito raramente no humor de Borges. Os livros que ele escreveu em parceria com Adolfo Bioy Casares, assinados pelo carnavalesco H. Bustos Domecq – Seis problemas para dom Isidro Parodi e Duas fantasias memoráveis –, são de humor. Anos depois, assinados por eles mesmos, Bustos Domecq volta à ação em Crônicas de Bustos Domecq e Novos contos de Bustos Domecq. São textos tresloucados, sátiras ferozes a literatos e artistas, ou às próprias literatura e arte. Os resenhistas sérios e os acadêmicos – um acadêmico sério seria uma redundância – toleram esses livros como uma extravagância do gênio e seguem adiante.

Tudo bem, podem ser mesmo uma extravagância, mas o resto da obra de Borges tem mais humor e ironia do que labirintos ou espelhos. Até seus ensaios estão repletos de humor e ironia. Sem falarmos em sua vida, uma vida de desastres amorosos, por sinal. Basta ler um dos inúmeros livros de entrevistas. Como é que fica, então? A seguir, umas notas mostrando o humor na obra séria de Borges e em sua vida.

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 Numa conversa com gente politizada, Borges se saiu com esta tirada: “Eu tinha entendido que havia apenas boa e má literatura. Isso de literatura comprometida pra mim soa a mesma coisa que equitação protestante”.

Nos anos 70, ou fins dos 60, Mario Vargas Llosa tinha um programa de tevê chamado Torre de Babel. Foi a Buenos Aires entrevistar Borges e ficou horrorizado ao ver que o escritor de fama internacional morava num apartamento de três peças apenas e com goteiras. Então perguntou como ele podia viver num lugar desses. Borges respondeu que “os argentinos não gostam de ostentação”. No dia seguinte, Borges contou que tinha sido visitado por um “peruano que devia trabalhar numa imobiliária, porque queria que eu me mudasse”.

Outra? Todo mundo sabia que Borges não gostava dos livros de Dostoiévski. Mas, como era famoso, convidavam-no para tudo, inclusive pra falar numa homenagem a Dostoiévski. Ele foi. Passaram o microfone pro velho e ele disse: “Como não gosto de Dostoiévski, vou falar de Dante”.

Em 1975, morre dona Leonor Acevedo de Borges, aos 99 anos. Uma mulher, durante o velório, lamentou: “Pobre da dona Leonor, morrer agora, quando faltava tão pouco pra completar cem anos. Se tivesse esperado um pouquinho…”. Borges, impassível, respondeu: “Vejo, senhora, que é devota do sistema decimal”.

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Sei que muita gente fica embasbacada com os adjetivos coruscantes de Borges. Mas pegue-se História universal da infâmia, livro da primeira fase, com um texto todo barroco. Há nele a gozação do próprio estilo, daquela pompa, daquele esplendor. Basta ler com atenção.

A primeira história, “O atroz redentor Lazarus Morell”, começa com uma frase de grande ironia, ainda mais que Borges sempre é acusado de racista: “Em 1517 o P. Bartolomé de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das minas antilhanas”.

Lazarus age no Mississippi. Borges dá uma descrição pomposa, retórica, minando-a em inúmeros pontos (não vou insultar o leitor pondo-as em itálico): “É um rio de águas mulatas; mais de quatrocentos milhões de toneladas de lodo insultam anualmente o Golfo do México, descarregadas por ele. Tanto lixo venerável e antigo construiu um delta, onde os gigantescos ciprestes dos pântanos crescem dos despojos de um continente em perpétua dissolução, e onde labirintos de barro, de peixes mortos e de juncos, dilatam as fronteiras e a paz de seu fétido império. Mais acima, à altura do Arkansas e do Ohio, também se estendem terras baixas. São habitadas por uma estirpe amarelada de homens esquálidos, propensos à febre…”.

Lazarus Morell era um bom representante dessa estirpe amarelada: “Nas chácaras abandonadas, nos subúrbios, nos canaviais apertados e nos lodaçais abjetos, viviam os “poor white”, a canalha branca. Eram pescadores, vagabundos, caçadores, ladrões de gado. Dos negros costumavam mendigar pedaços de comida roubada e mantinham em sua prostração um orgulho: o do sangue sem mancha, sem mistura. Lazarus Morell foi um deles”.

Mais um prego no caixão: “Não foi agraciado quando jovem e os olhos perto demais e os lábios lineares não predispunham a seu favor. Os anos, depois, lhe conferiram essa peculiar majestade que têm os canalhas encanecidos. Era um cavalheiro antigo do Sul”.

O mais engraçado, pra mim, é ver escritores levarem a sério um estilo que Borges parodiava.

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Uma das brincadeiras preferidas de Borges era atribuições falsas. Inventava autores pra dizer coisas que ele mesmo tinha pensado, inventava livros que depois os leitores tentavam achar ou diziam ter lido. Coisas assim. Nessa linha, a obra-prima é “A aproximação a Almotásin”, um belo conto que finge ser uma resenha e que foi publicado como resenha. Depois ele aplicou o mesmo truque em outros.

Por falar em livros inventados, quem não lembra de alguns títulos encontrados na famosa biblioteca de Babel? Trovão penteado e A câimbra de gesso.

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Há vários contos em que a ideia central é uma piada, piada que Borges trata com a seriedade da criança que brinca, descrevendo todos os desdobramentos com lógica implacável. É muito engraçado ver os críticos se descabelando pra explicar a coisa. Talvez o melhor exemplo disso seja “Pierre Menard, o autor do Quixote”. Eu adoraria saber como Borges teve a ideia de um sujeito que resolve, em pleno século 20, escrever Dom Quixote exatamente como Cervantes escreveu, linha por linha, palavra por palavra, vírgula por vírgula. Mas, vai ver, não é uma coisa tão misteriosa.

A brincadeira é dupla: com um certo tipo de crítico e com um certo tipo de escritor que plagia os clássicos e que além disso, como nota René Costa, num livros sobre o humor de Borges,  “pratica uma espécie de autofagia, plagiando sua própria obra, realizando enfim o que o pós-modernismo prestigia como a arte da reescrita”. Ainda René: “Menard é, tal como o apresenta o autor da necrologia, um artista pretensioso de luvas brancas, um decalque de Paul Valéry”.

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Um dos contos mais badalados de Borges é “O aleph”. Sabe-se que há um fundo autobiográfico, uma história de amor das mais grotescas, que Borges disfarçou com maestria. Mas me interessa aqui apenas citar uma descrição que me parece muito engraçada, dentro do contexto. O primo e amante de Beatriz Viterbo, o poeta Carlos Argentino Daneri, está entregue a uma atividade intelectual “contínua, apaixonada, versátil e de todo insignificante”. Escreve um poema que deve descrever toda a Terra. Em certo ponto, Borges esclarece: “Em 1941 já havia despachado vários distritos do estado de Queensland, mais de um quilômetro do curso do Ob, um gasômetro ao norte de Veracruz, as primeiras casas de comércio da paróquia da Concepción, a chácara de Marina Cambaceres de Alvear na rua Once de Setiembre, em Belgrano, e um estabelecimento de banhos turcos perto do prestigioso aquário de Brighton”.

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Nos ensaios, Borges continua brincando e continua cheio de imaginação. Lembremos um trechinho de “O idioma analítico de John Wilkins”, no livro Outras inquisições: “Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram as que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa que se intitula Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em a) pertencentes ao Imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cachorros soltos, h) incluídos nesta classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, l) etcétera, m) que acabam de quebrar o vaso, n) que de longe parecem moscas”.

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Sei não, mas me parece que os leitores que não percebem o humor de um Borges devem ler se agitando como loucos. Depois, quando escrevem suas teses, parecem moscas, tanto de longe como de perto. Ao serem confrontados com os fatos, ficam com cara de animais que acabaram de quebrar o vaso.

Autor

Ernani Ssó

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