Colunas

A chatice do Barbosa

Não dá mais para aguentar o que estão fazendo com a figura do Joaquim Barbosa, novo presidente do Supremo Tribunal Federal. Ele virou o …

Não dá mais para aguentar o que estão fazendo com a figura do Joaquim Barbosa, novo presidente do Supremo Tribunal Federal. Ele virou o modelo nacional, o herói, o grande caráter, o ético, o supremo, o fantástico, o inigualável.

Antes de qualquer coisa gostaria de destacar que conheço muito pouco sobre a vida de Joaquim Barbosa. O conheci em função do julgamento do Mensalão, como a esmagadora maioria dos brasileiros. Então, não estou afirmando que ele seja o oposto do que dizem as pessoas, modelo de ética e virtude, etc.

O meu incômodo é a chatice da coisa. As pessoas, em especial no Brasil, têm uma urgência de ídolos. Precisam de referências que lhes norteiem a vida. Do meu ponto de vista, por conforto. Se me amparo em ídolos e personalidades, acabo sendo pautado por estes. Admiro a estes. E me eximo de viver a minha própria vida, assumir as minhas responsabilidades e tentar ser eu mesmo meu ídolo e fazer com que os membros da minha família também o sejam para mim. Não estou falando de feitos heroicos. Falo da preocupação que as pessoas deveriam ter em serem bons pais, bons amigos, bons maridos, bons profissionais. Mas não: voltam seus olhares para ídolos e passam a viver a vida destes. Um exemplo de ética? Não é a pessoa, é seu ídolo. Um exemplo de determinação? Não é a pessoa, é o seu ídolo? Um exemplo de coragem? Não é a pessoa, é o seu ídolo? E assim, já que seu ídolo tem todas estas características, a pessoa pode optar por manter sua vida na mediocridade. Porque heroísmo para mim – e de novo, sem desmerecer nem merecer o Joaquim Barbosa, que pelo pouco que li a respeito e pelo racismo brasileiro deve ter sofrido muito até galgar o posto que ocupa – não é feito somente de personalidades conhecidas na mídia. Mas principalmente por quem rala numa vida dura para conseguir por comida na mesa, ser um marido ou esposa decente, um pai presente, mesmo trabalhando 12 horas por dia, pegando ônibus lotando e morando longe de onde trabalha.

Esta divinização, esta coisa amalucada que as pessoas têm é realmente uma necessidade. Quase patológica. Aparece alguém na mídia e pronto: começam a surgir notícias de como aquela pessoa se esforçou e foi boa e persistente e maravilhosa. A população o/a adota como o novo mártir do cenário brasileiro. Só que há um outro ponto importantíssimo: de perto, NINGUÉM é normal. Todos os seres humanos – exatamente por serem humanos – têm qualidades e falhas. Alguns mais, outros menos. Alguns têm falhas que não causam maiores problemas. Já há outras falhas que são de maior proporção e importância. E é aí que mora o perigo. Não faço a menor idéia de como Joaquim Barbosa é como filho(sim, eu vi que ele levou a mãe à sessão solene de posse no STF mas – pelo amor de Deus, sem querer comparar! – já vi criminosos fazer o mesmo), como pai(se é que tem filhos), como irmão(se tem irmãos), como colega. Não sei. Pode ser que seja excelente e admirável em tudo isto. Ou não. Pode ser que seja um obstinado, que ralou e ralou até atingir a cadeira que ocupa, não importando se passava por cima dos colegas e amigos. Não faço idéia.

O grave nesta situação de elevar o Joaquim Barbosa à categoria de ídolo nacional é a pressa. Que urgência e necessidade têm as pessoas em eleger ídolos, nestes tempos em que estão elas mesmas a olhar meio em transe suas telas de TV e curtir adoidado no Facebook! Não olham para suas vidas nem procuram elas mesmas trilhar os seus caminhos a ponto de, ao chegarem ao final e ao cabo de suas existências, poderem ter algum orgulho de si mesmas. Que carência, que vazio existencial! E assim sendo, estão frágeis e suscetíveis a surgirem Joaquins Barbosas em suas vidas. Ou esqueceram de como Fernando Collor foi eleito? O presidente jovem, bonitão, saudável, Caçador de Marajás. Viram no que deu. Então, o meu ponto de vista é: muita calma nesta hora. Vamos devagar. É o que penso. 

Autor

Flavio Paiva

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.