Nem sempre vou escrever sobre ternuras e afetos nesta coluna, com o aval do querido editor Vieira e da democracia que ele pratica no site. Nem sempre serei a mãe apaixonada pela sua única rebenta a narrar com euforia seus avanços de adolescente. Também não pretendo apenas brindar (ou castigar) meus leitores com as minhas aventuras na profissão de jornalista. Por vezes, nestas colunas que lhes entrego semanalmente há quase cinco anos, discorri sobre pequenas e grandes injustiças sociais; reclamei dos elevados preços de produtos e serviços e falei de leis e regras com e sem fundamentos.
Quisera só falar de flores e primaveras. Quisera só traduzir carinho com minhas palavras. Quisera fechar a janela das nossas vidas para os fatos nojentos, feios e que emporcalham as rotinas dos seres humanos. Quisera passar corretivo nas manchetes policiais dos jornais.
Impotente para transformar tão dura realidade, hoje preciso falar sobre o assassinato da paranaense Eliza Samudio, 25 anos, desaparecida desde o início de junho e que, segundo as investigações, teria sido sequestrada e morta, num ritual de crueldade e frieza. Os autores da chacina integram uma gangue comandada pelo ex-goleiro do Flamengo Bruno de Souza, com quem Eliza teve um filho de cinco meses, depois de um rápido relacionamento. O ex-defensor do gol do time rubro-negro, que sonhava com a seleção em 2014, teve o auxílio de primos menores de idade e amigos que tatuavam a devoção a Bruno no corpo.
A frieza dos primeiros depoimentos de Bruno, quando a polícia mineira ainda não admitia, pelo menos publicamente, que já desconfiava de sua culpa, choca tanto quanto o final trágico da moça, cujos restos esquartejados serviram para alimentar cães da raça rottweiler, treinados no sítio de um amigo do goleiro. A cara de pau de Bruno dizendo tratar-se de uma garota de programa choca tanto quanto o descaso da não-aplicação da Lei Maria da Penha, criada justamente para evitar a violência doméstica contra a mulher, quando, meses antes, a ex-modelo pediu proteção alegando ser ameaçada pelo esportista.
E sem entrar no mérito do submundo do sexo fácil, das orgias casuais e das drogas que acompanham a vida particular de alguns jogadores de futebol, os detalhes do crime fedem e enojam mais a cada nova revelação. Ocultação de cadáver, sequestro do filho da Eliza, motivo torpe, participação de menores no crime, e consequente redução da pena se confessarem autoria direta são fatores que embrulham o estômago de qualquer um. Menos o de Bruno, que, depois do assassinato, comemorou com os amigos bebendo cerveja. E nem da sua mulher oficial e atual, Dayane Rodrigues, autuada por subtração de incapaz.
No meio de tanta sordidez, mais uma vez, destaca-se a violência contra as mulheres. Cerca de 10 mulheres morrem por dia no Brasil vítimas de violência doméstica. No meio de tanta omissão, já que Bruno não tem uma ficha policial tão limpa, mais uma vez, desponta a falta de ação dos organismos oficiais. No meio de tanta canalhice, novamente, alguns procuraram jogar a culpa na vítima pelo uso do seu corpo. No meio de tanta estupidez, a impotência do ser humano, como nós, homens e mulheres, diante do fim das vidas das Elizas, Mércias, Sandras, Marias e tantas outras.

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