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A demência de meu pai

Um garoto. Garotão. Bonito. Nem simpático nem antipático – indiferente, à primeira vista. Se mostra cansado, meio que desaba na cadeira enquanto pergunta: “em …

Um garoto. Garotão. Bonito. Nem simpático nem antipático – indiferente, à primeira vista.

Se mostra cansado, meio que desaba na cadeira enquanto pergunta: “em que posso ajudar vocês?”  Enquanto meu pai o olha, naquele alheamento que não se sabe direito nunca se está atento ou viajando para outros lugares mentais, pego a pasta com todo o histórico médico do velho desde 2005, quando teve seus 8 AVCs. Vou falando. Pegando resultados de exames, tomografia.

Vejo que o garoto está inquieto. Mas mostra interesse. Exibo a lista de medicamentos que a  cardiologia indicou e acrescento que ela também deu amostras grátis de um antidepressivo chamado Serenata e o moço, rápido, me diz: “Serenata, o que é? Só conheço bombom”. Fico firme. Na verdade, não reclamo da ironia muito mais porque estou cansada do que por segurar a raiva. Telefono para minha mãe e com ela pego o princípio ativo do remédio, ao mesmo tempo em que me desculpo com o neurologista tão jovem por ter falhado em não ter à mão, na pasta tão completa, ao menos a bula do remédio. Me sinto uma imbecil.

Ele, então, diagnostica: “o que teu pai tem é bla bla bla bla bla demência”. E falou, falou, falou e eu só conseguia lembrar desta palavra. Demência! E meu pai ali, com aquele olhar vago, estranho. O que estaria pensando?

Espero o rapaz terminar de falar e olho firme para ele. “Demência não é loucura, né doutor?”, e faço sinal para meu pai, que continua silencioso e imóvel, ao meu lado. Então, o médico, especialista na cabeça dos mortais, discorre com naturalidade sobre “a demência não é loucura, em absoluto, é uma espécie de cansaço do cérebro”. 

E recomenda: “o senhor tem de ler, caminhar, fazer fisioterapia, palavras cruzadas”. E o pai ali, só diz pra ele. “Eu tô conformado, doutor”.  E ouve como resposta, daquele lindo menino que há pouco havia dito que recebe 15 pessoas pó dia com os problemas do meu pai: “eu também estou conformado, eu agora queria estar em outro lugar, mas estou aqui”.

Não. Ele não estava sendo grosseiro. Estava sendo objetivo e frio. Até elogiou meu pai: “o senhor é um sobrevivente”.

Saímos dali, corredor afora, meu pai caminhando como um bêbado, assobiando para disfarçar seu desapontamento com a vida, tentando me agradar como se me dissesse “tá tudo bem”, embora diariamente diga que não quer levantar da cama porque quer morrer.

Sim. Meu pai tem demência. Essas coisas que a gente sabe, intui, até fala en passant. Mas como dói ouvir tão claramente. E saber que tem de ir levando. Se conformar. Cuidar. Amar. 

Autor

Maristela Bairros

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