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A diaba enrugada

Fui ver O Diabo Veste Prada. Já tinha feito a lição de casa bem direitinho, assistindo ao especial do GNT sobre Anna Wintour, a …

Fui ver O Diabo Veste Prada. Já tinha feito a lição de casa bem direitinho, assistindo ao especial do GNT sobre Anna Wintour, a editora da revista Vogue que deu munição para livro e filme. E, hoje, antes de começar a escrever estas poucas linhas, me vi fuçando no google para saber mais sobre esta mulher de cabelinho chanel médio, sulcos profundos em volta da boca e dos olhos e aquela falsíssima fala a meio tom. Afinal, ela é da minha turma: mulher, jornalista, mãe etc etc etc. Tentei ver o filme mais pelo viés da comunicação e menos pelo do deslumbre do circuito plumas e rímel em plenas seis da manhã. Difícil tarefa. Calcado no acerto de contas pessoal da ex-assistente (quem lembra o nome dela?), o roteiro passeia por gestos, caras e bocas – é o repetido atirar de casacos e bolsas na mesa da subordinada, os olhares de desprezo, as frases ferinas ditas de canto de boca. Do mundo editorial, quase nada, a não ser o fotógrafo em sua sala, ou o referido livro com as provas das páginas que, diariamente, depois das 10 da noite, “Miranda Priestley” revisa e detona.

Incomoda ver que uma redação da importância de uma Vogue é retratada como o templo da futilidade, em que todo mundo entra em parafuso quando se aproxima a chegada da chefona. Dá nojo o corre-corre em busca de sapatos chanel para completar o visual das moças que, vistas na rua, fora do contexto daquele manicômio fashion, viram exatamente isso: loucas fashion. Cotejando a entrevista de Wintour e os flashes de sua atuação no trabalho, com as frases secas “não gostei” repetidas como mantra, com o filme, em que a personagem é apenas um pastiche da mulher cruel, fica difícil pensar que existe um local em que se pratica jornalismo com este perfil. Ou não?

Como centenas de carreiristas que não hesitam um segundo em botar no lixo relações pessoais e até de trabalho em troca de dinheiro, sucesso e poder (este filme se aplica a tudo…), a editora da revista que pode esvaziar ou empatar prateleiras de lojas deixa ver, na cara, que há muito virou vítima da própria ambição. Ganha muito, circula nos salões, limpa o sapato na cabeça dos funcionários, mas também serve a um patrão que a usa para, em suma, ganhar mais que ela. Em todos os sentidos.

O Diabo Veste Prada obviamente está pouco preocupado com a vida real das redações, em especial as da área de moda e comportamento. A experiência da jovem jornalista que quer se “sacrificar” trabalhando na revista para alcançar o nirvana em uma publicação “séria” não é novidade. E tem muito mais por trás deste gesto e do seguinte, de lavar a roupa suja depois de, mal ou bem, alcançar seu objetivo. Mas isso valeria outras crônicas que, por sua especificidade, não devem interessar o grande público. Quanto a Madame Wintour, volta e meia leva um castigo, como torta na cara ou tinta nos casacos de pele que debochadamente costuma usar.

Autor

Maristela Bairros

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