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A diferença entre um governador gay e um gay governador

Por Elis Radmann

Na semana passada, o governador Eduardo Leite, em entrevista para o jornalista Pedro Bial, falou pela primeira vez sobre sua orientação sexual, assumindo que é homossexual. Relatou que é um governador gay e não um gay governador. Tanto quanto Obama nos EUA não foi um negro presidente, foi um presidente negro. 

A declaração causou reações adversas, tanto no meio político quanto nas bolhas digitais. Os que aplaudem a ação, enfatizam a coragem do Governador, os mais críticos o acusam de oportunista, denunciando a ação como uma estratégia eleitoreira, motivada por sua pré-candidatura a presidente. 

As pesquisas longitudinais realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião se debruçam na compreensão do perfil ideal de um candidato, mapeando inclusive os pontos de repúdio e as características que o eleitor rejeita. Esses estudos são segmentados entre os vários tipos de eleitores, com mais atenção ao “eleitor tipo médio”. O “eleitor médio” tem em torno 44 anos, ensino básico, renda familiar de três salários mínimos, não se envolve com o debate político e costuma decidir os processos eleitorais. Independe de sexo biológico, mesma média de homens e mulheres. 

Essa jornada de aprendizado tem nos mostrado que o “eleitor médio” não quer um candidato que defenda a sua própria causa, que proteja os seus próprios interesses ou trabalhe para garantir vantagens de um grupo. Ou seja, não quer um negro governador, um gay governador, um empresário governador ou sindicalista governador. 

O que está em jogo para a maioria do eleitorado, que não participa das bolhas digitais e da polarização política, é o bem comum, é o interesse público, é a defesa dos interesses da sociedade, não se preocupando nominalmente com quem compõe a sociedade. Na prática, estamos falando da expectativa de que os políticos resolvam os problemas estruturais do Estado (na economia, saúde, segurança e educação), que busquem soluções. 

Para tanto, o eleitor tem clareza de que são necessárias três características básicas: a honestidade, a capacidade de gestão e o pulso firme (ressignificado pela habilidade de dialogar, negociar e ter atitude para tomar a decisão). 

O “eleitor médio” traz a leitura de que o líder é alguém que sabe o que faz e sabe como fazer. Posto isso, significa que para esse eleitor não importa a raça, a orientação sexual, religião e nem o time de futebol de preferência. 

Então a frase proferida pelo governador Eduardo Leite não é apenas um jogo de palavras, ela representa o anseio popular: que espera que um governante não coloque a sua situação pessoal guiando as suas decisões. 

Quando diz que é um governador gay e não um gay governador está dizendo que toma as suas decisões como governador, como alguém que representa os interesses do Estado e deve zelar pelo desenvolvimento econômico-financeiro do RS e pela qualidade de vida das pessoas. 

Isso não significa que o “eleitor médio” não tenha os seus preconceitos, podendo mostrar a sua homofobia ou racismo em conversas com amigos ou postagem nas redes sociais. Contudo, como esse eleitor é calejado por sucessivas decepções com políticos tradicionais, está mais preocupado em achar alguém honesto e competente.

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]
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