Colunas

A difícil missão de estar em paz

Por Carlos Guimarães

Reli minha coluna da semana passada e não gostei. Escrevi sobre a divulgação dos indicados ao Oscar e sobre a repercussão das nomeações nas redes sociais. Coloquei que grande parte dos que comentavam sobre justiças e injustiças nas indicações não tinha visto a maioria dos filmes. É aquela coisa: prazo curto, pouca inspiração e uma porção de coisas para fazer geraram um texto a toque de caixa, com alguma carga de preconceito e uma boa dose de intolerância. Era o que eu pensava há uma semana, sem sombra de dúvidas. Talvez não seja mais o que eu pense hoje. Contradição? Incoerência? Certamente. Mas isso talvez explique um pouco de como eu sou.

Uma pessoa muito especial uma vez me disse que eu apresentava minhas contradições na minha imagem. A barba branca contrastava com o tênis Vans, com a calça rasgada e com o moletom de skatista que eu usava no momento. Um adolescente tardio, um adulto que se recusa a crescer. Admitir as próprias incoerências é um exercício difícil num mundo em que a gente baseia todos os nossos sentidos norteados pelas convicções. O mundo é de teimosia e eu sou teimoso até que se prove o contrário, e isso é bem rápido. Se há uma contradição exposta fisicamente, existem diversas contradições que são colocadas verbalmente, no meu pensamento, nas minhas ideias, no meu jeito de ser. Ok, eu tenho lá minhas crenças e valores imutáveis, mas num sentido mais estrito das pequenas coisas do cotidiano, tenho facilidade para mudar de ideia.

A materialização dessa metamorfose é, para muitos, uma demonstração de maturidade. Um dos exemplos mais notáveis é observar que o meu niilismo já não é mais tão latente como em outros tempos. O que me faz ser menos negativo ou menos pessimista é o distanciamento das coisas. Entrei em férias dois dias depois de ter escrito a coluna e vim para Atlântida Sul, pequena praia do litoral gaúcho que abriga meu espírito há 35 anos. Aqui, o exercício do distanciamento e de revisar determinados pontos de vista pessoais produz uma energia que espanta essa visão negativa, dando lugar a um incrível estado de paz que desacelera o ímpeto e cria uma cadeia inacreditavelmente positiva.

Passei os verões da minha infância em Atlântida Sul. As casas, na época, não possuíam as cercas que hoje protegem as residências. A praia é desenhada em quadras com a mesma distância. Um terreno termina quando começa o outro. Lá nos anos 1980 ou 1990, muros baixos separavam as casas. As crianças, incluindo este que vos escreve, brincavam de atravessar as quadras por dentro das casas, despertando a graça dos veranistas mais relaxados e a ira dos desavisados. A sensação de liberdade nessa singela subversão era mágica. Passadas três décadas, as casas têm cercas e não seria prudente um cara de 40 anos fazer esse tipo de coisa. A liberdade é outra: está em rever as coisas, admitir as contradições, estimular um bem-estar nas pequenas coisas e revisitar uma sensação que se dá de outra forma, mas que igualmente produz o sentimento de subversão, que é buscar uma paz de espírito que talvez eu só tenha aqui.

É aí que meu niilismo dá lugar a um espírito de boas energias que antes, para mim, era uma coisa meio autoajuda de quinta categoria. Pode ser maturidade, podem ser novas prioridades, podem ser novas crenças. No fundo, é aquilo que a gente sempre persegue. Na difícil missão de encontrar a paz, o primeiro passo é entender o que somos. Talvez eu não abra mão de ser contraditório para que, depois, na praia, de férias, de longe, eu consiga enxergar tudo isso de uma forma diferente daqueles que me leem ou convivem comigo. A verdadeira liberdade não está em alcançar a paz, mas em entender que ela se manifesta de formas diferentes. A verdadeira liberdade está em enxergar o que somos. Nem que sejamos contraditórios de maneira suficiente para que, depois que eu voltar a Porto Alegre, volte a escrever colunas como a da semana passada.

 

Autor

Carlos Guimarães

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