Quem sabe, faz, quem não sabe, ensina? Se, em muitos casos, demasiados talvez, é isso mesmo, em outros é apenas um ataque à crítica. A verdade é um pouco mais intrincada, como esses suicídios de romances policiais que acabam se revelando crimes extremamente engenhosos.
Às vezes o talento criativo é menor do que o analítico, como num Aldous Huxley, ou num Gore Vidal. Daí temos ensaístas brilhantes mas maus romancistas. Jorge Luis Borges, ao comentar os romances de Huxley, foi durão, dizendo que “nada justifica essas penosas invenções”. Sobre o ensaísta, calou, que eu saiba. Mas o certo é que Huxley, sendo ou não um bom romancista, funciona muito como guia entre adolescentes, mas guia existencial, não literário.
A adolescência, sabe-se, é um período particularmente difícil e não estamos falando das espinhas. A adolescência de escritores, então. Não é por nada que serão escritores. Se fossem pessoas ajustadas à corrente da vida, ou da sociedade, é duvidoso que persistissem na literatura. Falo, claro, em literatura como um mano a mano com nossos fantasmas e como uma forma de limpar o meio de campo, ou ao menos de ter alguma noção sobre o que viemos fazer aqui nesta encrenca, não como meio de conseguir um emprego em Brasília ou uma vaga na Academia. Pensando bem, acho que todos começam sérios e sinceros. Depois é que sobram poucos.
Às vezes a pessoa é mais interessante do que a obra e a atitude dela frente à literatura e à vida, se é que há uma diferença muito grande entre elas, é que é a grande lição. Digamos o Hammett preferindo ir em cana do que abrir o bico, durante a caça às bruxas. Não podemos menosprezar influências desse tipo. Como escrever não é um ato isolado, gratuito, mas parte integrante da pessoa, como as digitais e a cor dos olhos, o comportamento é fatal. Veja-se Norman Mailer nas pegadas duras do Hemingway. Um exemplo mais latino: Adolfo Bioy Casares. Como notou Cortázar, o humor de Casares começa por admitir os limites da própria literatura dele, conseguindo assim ultrapassá-los. Como um aprendiz de feiticeiro não ter isso bem presente?
Mas há casos em que tudo bate certo: obra, atitude, pessoa. Um desses, pra mim, foi o Mario Quintana até nas ranzinzices.
Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares
Borges: “Admiram Saroyan por sua mensagem de esperança. Que importa a mensagem? O que é? Uma palmadinha no ombro? O que isso tem a ver com a literatura?”. Bioy: “Hemingway dizia: ‘Quando tenho de enviar uma mensagem, vou ao correio’, ou coisa parecida”. Borges lembra quando Donald Yates, que partia para o México, perguntou melosamente a Peyrou: “Qual é sua mensagem para os jovens poetas mexicanos?”. Peyrou, cansado, respondeu: “Diga a eles que vão pra puta que os pariu!”.
Meu ramo (trecho de carta)
Não tenho interesse em discutir projeto cultural nenhum com governo nenhum. Não é o meu ramo. Meu ramo é apenas escrever uns livrinhos. Não sou um profissional da cultura. Sou um aventureiro da cultura, o que é outro papo. Agora, não é por isso que eu vou abrir mão de criticar qualquer projeto cultural que aparecer, se eu achar que deva criticar. Pelo que tenho visto, a cultura precisa é ser defendida dos governos.
Na escola
Eu não devia dizer, mas, sem lua, sem conhaque, fiquei comovido como o diabo. Depois de falar com várias turmas numa escola, as crianças que tinham meus livros quiseram autógrafos. Quando se entusiasmam com uma história, elas se sentem nossas amigas íntimas e precisam dizer isso bem de pertinho, se possível com as mãos. É provável que por trás disso esteja a necessidade de comprovar a realidade do sujeito, porque é bastante comum a fantasia de que livros surgem do nada, ou da cabeça de gente que já morreu há muito ou mora no estrangeiro. Enfim, uma menina aí de uns oito ou nove anos, sem saber o que me dizer, me olhou profundamente nos olhos e me disse com a voz mais doce: “Como teus óculos são bonitos”.

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