Umberto Eco disse esses dias que a inteligência é banal e a estupidez, fascinante. Manjo. A inteligência é clara, lógica, quer dizer, a gente pode seguir, sabe por onde anda, aonde vai parar. A estupidez, ao contrário, é obscura, guiada por impulsos que podem constranger até uma galinha na hora assustada em que acabou de botar um ovo, em geral carregados de violência e ressentimento. É fascinante porque dá o que pensar, porque provoca a inteligência a entender os motivos – corriqueiros ou escabrosos – que a animam. Às vezes a estupidez é tão absurda em suas conclusões que tem uma beleza, digamos, artística, ou você não acha belo ter certeza de que a Terra é plana, circundada por um rio que deságua na nascente? Claro, hoje essa idiotice se perdeu, mas foi substituída por muitas outras, não menos loucas, mas certamente menos belas, como o Polo Norte ser oco e morada de uma raça de gigantes bondosos. Quem acredita nisso deve ser um fã de desenho animado.
Umberto Eco disse também que a internet deu voz a legiões de estúpidos, constatação bastante óbvia, já que até essas legiões se deram conta. Mas o mais engraçado em relação a essa tirada do Eco é que ela caiu nas graças de milhares de estúpidos que a repassaram pensando que se tratava de um elogio ou simplesmente assumindo com orgulho a própria condição. Depois dizem que a Santíssima Trindade é misteriosa.
Mas é preciso fazer um reparo: antes da internet, os livros, os jornais, as rádios e tevês estavam lotados de estúpidos, e com o agravante de que esses estúpidos passavam pelo filtro de editores. A vantagem, antigamente, é que havia um nome ou veículo pra levar a culpa e um eventual processo. Agora estamos no nível de um bate-boca no trânsito. Ou não, porque no trânsito, dependendo do tamanho do motorista, muita gente fica moderada. A internet não deu apenas espaço a qualquer opinião, deu espaço pra qualquer tocaia. Aposto que aquelas pessoas que ficavam jogando nos passantes saquinhos plásticos cheios de mijo do alto de edifícios diminuíram muito depois da internet.
Segundo Millôr Fernandes, o homem, como espécie, não deu certo. Apenas alguns indivíduos deram certo. Olha, se não bastassem séculos de história pra ilustrar essa observação, era só ler as caixas de comentários. Uma tarde de leitura dá pro gasto e sobra.
Como venho lendo essas caixas faz anos, começo a discordar do Umberto Eco. A estupidez é tão vasta e ubíqua, cobrindo todos os campos e assuntos, da descoberta de novos planetas às perebas na bunda da Lady Gaga em foto recente, que se tornou sufocante. Depois, como quase sempre acaba em becos sem saída e repete seus esquemas, é muito tediosa. Tanto que quando topamos com alguma frase lúcida no meio desse maremoto de algaravias sentimos um alívio maravilhoso, parece que tomamos um gole geladinho de limonada numa tarde de verão no Senegal.
Há outro grande problema com a estupidez: é contagiosa. Diante de raciocínios sem a menor lógica, diante de birras dignas de uma fé evangélica, é muito difícil se manter impassível. Já que a lucidez na maioria das discussões não serve pra porra nenhuma – como vai servir se não é percebida? –, por que não mandar o cara lá na esquina ver se a mãe dele não está fazendo exercícios rotatórios com uma bolsinha? É ou não é uma tentação? Mais: nesse caso ele certamente compreenderia.
Se uma mente é desafiada, ela reage, fica atenta, se afia. Se ela enfrenta apenas a banalidade, os lugares-comuns, pode achar que não vale a pena pensar e pode deixar pra lá. Todo dia deixando pra lá é um problema – órgão que não se usa, atrofia, ouvi uma vez na escola. Em tempo: o problema da mente estúpida é que sua reação é do tipo avestruz, enterra a cabeça nas próprias certezas.
Claro que a gente pode se divertir com os estúpidos. Quanto mais a gente mostra que não os leva a sério, ou os provoca lançando as iscas certas, mais tiriricas ficam e mais besteiras dizem. Infelizmente isso cansa em seguida. É como apostar corrida com um perneta.
Outra coisa que acontece muito com os estúpidos é que, fácil, fácil, se consideram atacados pessoalmente. A gente não chamou o cara de feio, nem de filho dessa ou daquela, nem de canalha, mas no íntimo ele se sente desrespeitado. Ele não consegue distinguir a si mesmo, pessoa, das opiniões que tem. Um estúpido pode ser um bom pai, um marido exemplar, um profissional competente – e eu respeito sem hesitação nem ironia esse pai, esse marido, esse profissional, até tenho algum afeto por vários idiotas chapados. Mas basta discordar de suas opiniões pra termos um angu com abundância de caroços. Um dos traços distintivos da estupidez é brigar por uma ideia, não discuti-la.
Ligada a isso, está a tendência universal do estúpido, quando se sente encurralado, de brandir a própria experiência, suas têmporas prateadas e os diplomas que tem na parede da sala. É patético. Se cabelos brancos e diploma fossem sinônimos de inteligência, sabedoria e bom senso, o mundo seria o paraíso, afinal a maior parte dos governantes são homens maduros e diplomados. Até George Bush, filho, incapaz de completar uma frase com sentido, é diplomado pela Universidade de Yale. Ou, pra ficarmos no campo de minha preferência, pra ser um grande escritor bastaria ter o diploma de uma oficina de literatura, quando qualquer adolescente sabe que isso não garante nem um bom redator.
Tenho tido alguma sorte na caixa de comentário da minha coluna. Como em geral falo de literatura, coisa que interessa a uma meia dúzia, quase ninguém comenta nada. Entre os que comentam, muitos são entusiastas e é como se estivéssemos numa mesa de bar batendo papo. Então, contra ou a favor, está tudo bem, fora um que outro faniquito causado por idolatrias ou superstições ou carteiraços acadêmicos. Mesmo assim já fui chamado de machistoide, petralha, anticomunista e antiético, além de ressentido, claro. O ressentimento, por sinal, é a acusação número um contra qualquer crítico de qualquer coisa, mesmo que o fulano esteja coberto de razão.
Como nunca concorri a miss simpatia, como nunca posei de sábio oracular, como conheço muito bem minhas limitações e minha falta de importância, leio essas acusações como quem lê esses volantes que nos dão na esquina. Ou não, porque essas acusações em geral são feitas num contexto de ópera-bufa e aí acabo achando graça. Claro que eu não acharia graça nenhuma se vivêssemos numa ditadura – muito escritor pegou cana ou foi morto devido à péssima interpretação de texto de seus leitores.

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