Me diverti viperinamente com os humilhados e ofendidos joyceanos e leporídeos. Como o universo sabe, o Paulo Coelho deu uma entrevista à Folha de S. Paulo dizendo que se deixarmos de lado o estilo, Ulysses, do James Joyce, o que sobra dá um twitter. Minha nossa, foi tanto pau no Coelho, que pensei que a Associação Protetora dos Animais ia intervir, ou que o Coelho ia substituir o boi na farra.
Como o Coelho, autor de livrecos de autoajuda, mal e porcamente alfabetizado, pode se arrogar o direito de falar do Joyce? Encarando isso com frieza, dá pra dizer que parece grotesco mesmo, tipo eu fazer críticas à Teoria da Relatividade. Mas não é um argumento: não se tentou provar que Coelho disse uma asneira, mas sim que um pé de chinelo como ele não tem o direito de abrir a matraca. Isso não está certo. Qualquer um tem o direito de dizer o que pensa. Se será ouvido são outros quinhentos mil réis.
Também não me parece certo simplesmente apresentar dados do tipo listas em que Ulysses é dado como o principal romance do século 20. Isso não é argumento, é carteiraço. Eu, por exemplo, encabeçaria minha lista com O castelo, do Kafka, depois de argumentar longamente, com dezenas de ressalvas e nuances. Na verdade, não acredito nessas listas. Isso é coisa de revista de fofocas, com as dez mais bem vestidas ou desvestidas.
Outra coisa: Ulysses é um feito, ponto. Mas não está isento de defeitos. Não há livros perfeitos, pelo que me disse uma tia que fez Letras. Então, seria melhor alguns joyceanos pararem de se sentir superiores apenas pelo fato de serem ou se acreditarem joyceanos. Não se trata de heresia não gostar do Joyce ou criticar Ulysses. Já há guerras santas demais, pessoal. Vamos deixar o campo da literatura pra inteligência e pra diversão.
A reação dos leporídeos, em comentários coalhados de erros de português, pode ser resumida assim: intelectuais — palavrinha que sempre usam entre aspas, insinuando assim que os ditos são tão ignorantes como eles mesmos — não sabem que o Coelho trata do que realmente importa nesse vale de lágrimas, o amor. Em nome do amor, tudo é permitido. Inclusive fazer péssima literatura e não ter a menor noção do que significa amor.
Como argumentar, num caso desses? Eu fico quieto no meu canto. Eu tenho mais o que fazer do que me preocupar com o Coelho. Nem nutro ressentimento algum com o sucesso dele. Segundo Schopenhauer, quem escreve para os tolos sempre encontra um grande público. Claro que isso não me consola pelos meus poucos leitores, nem resolve minha melancolia toda vez que consulto meu saldo no banco. Mas as coisas são como são. Eu sou o único culpado de ser o escritor que sou.
Mas a reação de certos joyceanos me preocupa. Por exemplo, apresentei duas citações, catadas em Borges (editora Destino), o descomunal diário do Adolfo Bioy Casares. Teve gente que ficou achando que, de brincadeira, eu tinha dado uma de Borges, inventando as citações. Veja, se sou eu a criticar o Joyce, vou levar uma espinafração daquelas, como se fosse um leporídeo qualquer. Como a crítica é do Borges, muito nego engole em seco. Ora, ora, Borges é muito bom, muito inteligente, mas também cometeu seus erros, pelo que me informou aquela mesma e querida tia. Eu lanço a provocação e espero o quê? Que a razão das pessoas trabalhe, só isso.
Borges em dose dupla
Primeira: “Como um homem com talento puramente verbal, como Joyce, não compreendeu que o que não devia escrever era um romance? Tomara que a fama de Joyce passe, porque na verdade é uma calamidade: idiotiza os escritores e ainda os leva a imitações lamentáveis. Muitas vezes me é impossível dialogar, por causa dos elogios a Ulysses e a Finnegans que meus interlocutores fazem, e principalmente pela calma certeza deles de que compartilho seu entusiasmo… E por que essas mesmas pessoas que admiram o Ulysses admiram esses contos sentimentais e estúpidos de Dubliners?”.
Segunda: “Pensem nos principais romances de nossa época — digamos, o Ulysses de Joyce. Ficamos sabendo de mil coisas sobre os dois personagens, porém não os conhecemos. Sabemos mais sobre os personagens de Dante ou de Shakespeare, que nos vêm — que vivem e morrem — em umas poucas frases. Desconhecemos mil circunstâncias sobre eles, mas os conhecemos intimamente. Isso, claro, é muito mais importante”.

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