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A fé na humanidade e as reuniões de condomínio

Pra gente perder a fé na humanidade, basta ir a meia dúzia de reuniões de condomínio. Se, depois de meia dúzia de reuniões de …

Pra gente perder a fé na humanidade, basta ir a meia dúzia de reuniões de condomínio. Se, depois de meia dúzia de reuniões de condomínio você continuar acreditando na possibilidade de qualquer utopia, seria recomendável uma tomografia cerebral ou uma benzedura com água benta. Como esperar construir o homem novo com o material que está aí – estupidez, mesquinharia, ânsia de poder, vaidade, falta de lógica e de caráter? Lembre-se que o material não mudou no essencial desde que desceu das árvores. Claro, deve-se continuar lutando, mas não por causa da espécie: ela deu errado. Deve-se continuar tentando porque alguns indivíduos deram certo. Incrivelmente alguns deram certo e incrivelmente alguns desses se tornaram síndicos.

Papo de escritor

Como, não leu a reedição do meu romance? Mas eu mexi horrores, não é mais o mesmo: eliminei cinco vírgulas, oito frases e umas vinte palavras soltas. Ah, acrescentei uma palavra. Fundamental. Mudou tudo. Você precisa ler.

Deu na BBC

“Ser solitário é quase duas vezes mais perigoso que ser obeso.” Quer dizer que se eu engordar devo ligar pra uma funerária.

Desconhecido íntimo

Este texto saiu no El País. É de Andrés Neuman.

“Por seu impacto iniciático, costuma-se repetir que Cortázar é uma descoberta de adolescência. Essa afirmação, que contém sua dose de injustiça, omite no mínimo outra realidade: há principalmente uma maneira adolescente de ler e lembrar Cortázar.

“Sua aproximação ao vínculo entre escrita e vida, herdada do romantismo mas também das vanguardas, transforma-o no tipo de autor que gera uma imaginária relação pessoal com seus leitores. Para o bem e para o mal, Cortázar é contagioso. Por isso os que fingem desdenhá-lo na verdade estão se defendendo dele.

“Duas forças complementares o mantêm num raro equilíbrio emocional. Uma força centrífuga, o humor, que lhe permite se distanciar de si mesmo; e outra centrípeta, a ternura, que provoca adesão íntima. Seria esnobe subestimá-las.”

Deu no Cândido n0 40

Citações pinçadas de uma entrevista com o Sérgio Augusto:

1: “Sim, faço com livros o que faço com filmes: se me aborrecer, largo no meio – ou mesmo no início. A vida é curta e são muitos os livros que ainda não li por falta de tempo. Com ficção costumo ser implacável. Se um romance ou uma novela não me seduz, não me intriga, começo a me cobrar por que, diabos, não estou relendo Flaubert.”

2: “Confesso, sem culpa ou vergonha, que leio mais e com maior interesse os autores de língua espanhola [que brasileiros]. Nacionalismo em arte não existe.”

3: “Para ganhar tempo, paro de ler de imediato qualquer texto com clichês e expressões que abomino. De imediato mesmo, ainda que o assunto me esteja interessando. É minha forma de protestar em silêncio contra o insulto que a meu ver representam coisas do tipo “resgatar a memória”, “conquistar corações e mentes”, “ícone” disso e daquilo, “emblemático”, e por aí vai, o glossário não para de crescer. Com a internet e seu vale-tudo vernacular, sintático e estilístico, esse descalabro atingiu culminâncias inéditas. Há blogs que, só de olhar, me provocam engulhos, com seus pontos de exclamação torrenciais, suas palavras “gritadas” em caixa alta, seu gosto por hipérboles do tipo “o máximo”, “genial”, “imperdível”.”

Assino embaixo.

Autor

Ernani Ssó

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