Em 1979, às cinco horas, dia 17 de maio, eu acordei com uma estranha dor no ventre, uma cólica aguda que nunca havia experimentado. Levantei da cama, tomei um banho, acordei meu marido e lhe disse: ‘Tá na hora’. Fiquei mais de quatro horas em trabalho de parto até que a cesariana salvou a vida de meu filho Lourenço. Na noite daquele dia inesquecível, eu não conseguia dormir pela dor na cirurgia e também pelo susto de me ver, de fato, mãe, e ter uma caminhada desconhecida pela frente. Então, peguei da sacola o livro que eu vinha lendo ao longo de minha primeira gravidez e terminei suas últimas páginas. O livro é Germinal, de Émile Zola. O meu livro da alma.
Terça-feira, acompanhando a saída do primeiro mineiro a ser resgatado do fundo da terra no Chile, lembrei de Zola e da saga de Etienne e daqueles homens que ele retratou, de forma contundentemente naturalista, numa França desigual como o Brasil de hoje, que jogava perfume nos corredores dos castelos para tentar encobrir o fedor da falta de banho, do mau hálito dos dentes podres, das feridas, das fezes e da urina dos seus habitantes. Como o Brasil de hoje, em que o governo de Lula, há oito anos, encobre nossas misérias, nosso analfabetismo, nossos esgotos a céu aberto, nossa criminalidade, com o perfume bestial da falsidade, do engano, da perfídia, da loucura pelo poder.
Os mineiros do Chile tiveram direito a uma nova chance de vida. E esta nova vida será muito diferente da que tiveram até então, quer eles queiram ou não. Seus colegas, que não experimentaram a tortura de ficar quase 70 dias enterrados vivos, com certeza vão desfrutar de melhores condições neste trabalho violento e arriscado, ainda resquício de uma exploração econômica e humana que vem de séculos.
De Germinal, o romance de Zola, que integra uma série de 25 volumes que ele iniciou com 28 anos de idade e que se chama Os Rougon-Macquart, lembro em especial de uma cena: aquela em que os mineiros voltam de sua longa e triste jornada de trabalho e, em meio ao frio desesperante, à fome e à falta daquilo que eles tinham em mãos mas de que não podiam desfrutar – o carvão –, tomam banho em uma tina. Todos usam a mesma água que, ao final, se transforma numa borra de carvão que acolhe o último a se lavar.
Zola viveu a experiência que relatou. Ao longo de meses, acompanhou a rotina dos mineiros franceses. Eram os anos 1800. Hoje, na China, mineiros continuam morrendo como baratas sob as patas do comunismo, enquanto o país vai devorando matérias-primas de outros países como o Brasil, que ao país do criminoso Mao Tse Tung se assemelha na falsa euforia da riqueza para todos que continua sendo de poucos.
Estamos a poucos dias de nova votação para alguns governos estaduais, mas, principalmente, para a Presidência do Brasil. Apoio abertamente, desde os primeiros momentos, a candidatura de José Serra. Sei que a chamada máquina do PT está recheada de dinheiro, que o tal aparelhamento do Estado contém milhões de petistas e aliados oportunistas que fazem propaganda política de Dilma sem a menor vergonha em instituições públicas. Como Lula fez, no Alvorada, faz pouco, em mais uma demonstração de sua falta de ética acobertada até por parte do Judiciário.
Vi críticas sobre a presença do presidente do Chile em tempo integral, acompanhando o resgate dos mineiros, até ao fato de Piñera ser empresário, rico, e estar sorrindo demais diante das câmeras, estar perto demais da saída do túnel e, suprema ofensa, ser abraçado pelos resgatados que se sentiriam “obrigados” a saudá-lo. Confesso que senti e sinto uma inveja imensa dos chilenos por terem eleito um presidente como este Sebastian Piñera. Ele é o antípoda de Lula, que foi filmado carregando na cabeça um isopor cheio de cerveja, exibindo sua barriga obscena na praia, enquanto Angra dos Reis sofria sua tragédia no primeiro dia do ano.
Parabéns, então, aos chilenos por sua lição de solidariedade, patriotismo e capacidade de discernimento ao renegar a bandeira do socialismo oportunista e ter a dirigi-los um presidente de verdade. É hora de o Brasil fazer o mesmo.
