Acabo de dizer a esta senhora de óculos na ponta do nariz cujo rosto me olha da tela do notebook que ou ela aprende a lidar com a frustração ou é melhor pedir as contas de uma vez. Impressionante que uma pessoa como ela, que se acha tão ligada, que se orgulha de pouco se surpreender com o que a rodeia, ainda fique chocada com as adversidades que se impõem quando tudo parecia caminhar bem.
Esta senhora, afinal, cresceu em meio a uma realidade em que havia mais espinhos que rosa e, a bem da verdade, nunca se deixou levar por aquela conversinha de que “quando casar sara”. Aliás, nem casar queria, se achava destinada a alguma missão espiritual profunda que não incluía, claro, ser igual às demais mulheres, envolvidas em seus mundinhos de paixões terrenas e serviços de cama, mesa e banho.
Acontece que a vida leva, independente do pagodinho barato que pede que deixem que ela nos leve. E as noções de valoração, um dia, são colocadas em cheque. O que perturba esta senhora, criada sob um rígido código de conduta em especial pela mãe, aquela descendente de portugueses que nunca permitiria um deslize na rotinha familiar, em especial da filha.
Hoje, porém, nossa personagem de cabelos grisalhos, quase sessentona, descobriu que, além de precisar bater cabeça para se integrar ao mundo da nova tecnologia igualmente precisa gastar o que lhe resta de energia aparando golpes que teoricamente jamais receberia. Como o fato de ser considerada suspeita por ter confiado cegamente em alguém a quem pagou para encaminhar um mais que necessário processo de aposentadoria. Ah, sim, muitos observarão: uma profissional de comunicação social ser pega num golpe deste tipo! Mal sabem eles que ela foi tão, mas tão desleixada com seus direitos trabalhistas que jamais pediu um aumento salarial na vida e nunca viu que a primeira empresa que assinou sua carteira de trabalho, a hoje RBS, jamais registrou sua saída. Nem ela reparou. Nem reclamou.
Pois é. Agora, uma toda poderosa burocrata do INSS, que cavou sua segurança e certamente uma aposentadoria polpuda depois de deixar um rastro de concursos Brasil afora, pois esta mesma pessoa julgou irregular o processo que foi devidamente aprovado e que vinha dando suporte financeiro através de um minguado benefício a esta agora arrasada senhora que continua a me olhar da tela do computador.
Não dá para discordar dela quando esbraveja contra tanta canalhice, em todos os poderes constituídos, enquanto seu meio de subsistênca, a que fez jus por tantos anos de trabalho sem direito a feriados, aniversários, etc, tantas vezes sob as patas de chefias asquerosas e proprietários de empresas que nem mereceriam ser chamados de humanos, tudo o que batalhou virou pó. E uma dúvida quanto à sua honestidade, seu caráter, seu merecimento.
Sim. Esta senhora vai partir para outra, vai baixar a cabeça e aceitar o julgamento de uma burocrata ensinada a, como qualquer burro, não tirar as viseiras para tentar ver mais além do que o caminho que percorre puxando a carroça, e vai começar de novo, já que papelada tem de sobra para provar o quanto trabalhou e descontou para a farra do boi dos safados dos três poderes.
Não sem manter o travo da raiva e da tristeza na boca. Não sem manter a indignação que a leva a espalhar a todos os ventos o que a maioria, em nome da elegância (leia-se hipocrisia) esconde.
A senhora, hoje, tem de reunir forças para levantar da cama e enfrentar o dia. Busca esta força nos pais velhinhos e doentes que precisa amparar e nos filhos impecáveis que a amparam, bem como em poucos e extraordinários familiares e amigos que se importam. Ela tem, porém, muito o que aprender. De porrada em porrada, um dia chega lá. O que já é uma boa notícia.
