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A importância da pauta jornalística

A pauta é vista de forma diferente pelos jornalistas de cada modalidade de mídia. Alguns a consideram como fundamental. Indispensável até. Outros acreditam que …

A pauta é vista de forma diferente pelos jornalistas de cada modalidade de mídia. Alguns a consideram como fundamental. Indispensável até. Outros acreditam que a pauta está nas ruas, nas repartições, em qualquer lugar, pois o mundo, hoje, é mais dinâmico, as informações giram rapidamente de um ponto a outro e, com a internet, o que era notícia pela manhã, à tarde já é passado. Eu me incluo no primeiro grupo, sou, posso assim dizer, fã de carteirinha da pauta tradicional.

Sim, fã da reunião de pauta envolvendo um grupo de editores/subeditores ou os antigos pauteiros ou chefes de reportagem – a nomenclatura muda conforme a empresa – que se debruçam sobre os principais assuntos do dia e avaliam o potencial de cada um tornar-se a manchete ou talvez um simples resumo. Claro, aqui tratamos de um veículo (rádio/jornal/TV) de médio para grande porte.

E porque a pauta é importante? Concordo que no chamado ‘jornalismo fast food’ tudo acontece de forma avassaladora que nem dá tempo de pensar em pauta. É ouvir, saber e divulgar. Talvez isso valha para notícias mais objetivas, porém, para sustentar uma boa reportagem é preciso ir mais fundo na questão, saber sobre seu passado, como está seu presente e projetar seu futuro. Aí partir em busca de fontes.

Em uma redação tradicional a pauta quase sempre começa com o repórter que, ‘dá uma dica’ sobre determinado fato ou evento que viu/presenciou e pode render uma boa matéria. No passado, sem os recursos generosos da informática instantânea, o pauteiro, ou chefe de reportagem, precisava recorrer ao arquivo de jornais ou alguns recortes de com publicações sobre o tema – ou buscar na sua memória – para ter informações que pudessem subsidiar o repórter na sua missão. Esse tempo passou, pois (quase) tudo está na internet, ali, prontinho, mastigado, ao alcance de um clique.

Mesmo dando-se o desconto que nem tudo é totalmente verdadeiro, a maioria das informações é correta e subsidia o repórter na sua busca por dados mais consistentes. No entanto, penso que a internet não pode substituir a reunião de pauta. É na discussão, nas discordâncias e questionamentos que nasce uma boa proposta sobre determinado tema. Ou seja, o ‘brain storm’ é fundamental. É mais que preciso chafurdar nas entrelinhas de uma informação vaga para encontrar uma pista da mina de ouro que é a notícia final de verdadeira.

Temo que, no futuro, a reunião de pauta vire uma troca de mensagens e perca, não o seu espírito de confronto, mas a essência do jornalismo que é o debate, o contraponto, a dúvida. Não tenho conversado com colegas professores de jornalismo para saber qual a avaliação sobre esse tema na profissão, mas pauta é mais do que uma agenda ou um busca de dados frios na internet. A pauta, eu arriscaria dizer, é a essência de vida jornalística.

Recentemente, li que em um jornal da capital gaúcha a diretora questionou editores sobre o espaço destinado a uma reportagem com um garoto que ficou paralítico como sequela de uma divergência no trânsito e que recebeu a visita de goleiros do Grêmio. A primeira matéria, o relato do caso do menino rendeu uma ‘switch’ ou suíte, ou seja a repercussão, uma continuidade. Mesmo assim, foi questionada. No entanto, não soube de nenhum questionamento sobre a repercussão de uma reportagem a respeito de um ‘bebê de proveta’ em fase adulta. Será que isso teria mais (ou igual) importância do que a história do garoto gremista paraplégico?

Enfim, a pauta até pode ser questionável, mas não é dispensável, senhores jornalistas.

Autor

Julio Sortica

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