O filósofo polonês Zygmunt Bauman provocou o mundo ao escrever, no final do século 20, sobre um cenário global que, segundo ele, seria a principal característica da primeira metade do século seguinte. Em quatro volumes mais conhecidos – A Modernidade Líquida, o Amor Líquido, Tempos Líquidos e Medo Líquido -, Bauman coloca que as relações contemporâneas são fugazes, maleáveis, descartáveis, transportáveis. Como os líquidos. Aquilo que flutua, flexibiliza, assume o formato de acordo com o recipiente. O amor, a sociedade, as possibilidades e até o dinheiro seriam líquidos, frágeis e adaptáveis, assim como desprezíveis, descartáveis e esquecíveis. Não existe mais o perene, que é o sólido. Tudo passa, tudo é efêmero, tudo é a sensação, o momento, a experiência.
Eu li os li os livros de Bauman. De certa forma, numa fase diferente da minha vida, mais especialmente num fragmento de tempo, eu aceitei “O Amor Líquido” como um bom motivo para reorganizar as coisas em mim. Entender o conceito de liquidez proposto pelo autor pode funcionar como um elemento de catarse para resolver coisas da própria vida, como uma mudança de hábitos ou a quebra de uma rotina. Bauman funciona como autoajuda sofisticada neste sentido: adaptar a liquidez das coisas faz com que aquilo que você entenda que tudo aquilo que você deseja descartar se torne mais fácil de fazê-lo. O coaching líquido, in memoriam.
Mas é claro que esse viés prático e inusitado para a obra de Bauman não é de fato uma compreensão correta daquilo que ele quis colocar. Entendo que a liquidez seja o recorte de tempos em que a experiência (o fragmento, o fugaz, o líquido) está à frente da conquista (o duradouro, o ter, o sólido). Mas nem todas as experiências são líquidas. As produções sensitivas das relações podem ser bem sólidas, mesmo que o tempo se encarregue de, ao menos, presencialmente, afastar esses elementos– de forma física, no caso. Ou seja, esse líquido se materializa em sólido, naquilo que fica, que permanece, como bloco, não moldável, não transferível ou adaptável.
Crescem nas redes sociais postagens que visam entreter uma audiência que está confinada. O assunto preferencial, além do coronavírus, é o BBB. Mas, em paralelo ao reality show que parece ter voltado com força total em 2020, existem postagens que buscam resgatar uma memória afetiva que parecia estar esquecida com a correria do cotidiano. É a indústria da nostalgia. Listas de filmes, músicas, acontecimentos, jogos de futebol, lembranças de shows e eventos inesquecíveis, são colocadas na internet sob forma de aplacar um pouco a dificuldade mental que exige o confinamento.
A indústria da nostalgia é a materialização daquilo que é sólido e que, portanto, contraria a lógica de Bauman de uma modernidade líquida. A nostalgia é uma zona de conforto que nos remete às mais singelas, doces e seguras ligações afetivas com aquilo que a gente é. Uma música, um jogo ou um filme são coisas que entraram na nossa vida e ficaram para sempre. São a manifestação mais sólida de eventos culturais, desportivos ou até cotidianos que se incorporaram àquilo que somos. A nostalgia é o antídoto para a desesperança, para a incerteza e para o alívio da nossa mente. Ela nos define e ela nos acalma.
A previsão de uma modernidade líquida esbarra num passado sólido. Somos uma construção de referências, numa rede de afetividade que não pode ser descartável ou desprezível. Nossa formação é sólida, não líquida. E essas relações sinalizam para aquilo que combate as previsões de um tempo que se joga fora. O tempo é perene, é duradouro e a nossa noção de liquidez termina quando a vida nos obriga a se distanciar das coisas. Só não se distancia daquilo que ficou em nós, num gostoso exercício de buscar na saudade, na nostalgia e no passado aquilo que nos conforta numa época de isolamento. Somos aquilo que construímos e nada pode ser mais sólido do que aquele sorriso gostoso depois de lembrar uma música que nos marcou ou de um evento que a gente nunca mais esqueceu. O líquido é sólido e nunca foi tão confortante pensar assim.
