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A morte, a escola e eu

Tenho ido muito a escolas falar com crianças e professoras. É sempre uma alegria e sempre uma surpresa, ou uma estranheza, porque é difícil …

Tenho ido muito a escolas falar com crianças e professoras. É sempre uma alegria e sempre uma surpresa, ou uma estranheza, porque é difícil entender como um punhado de livros pode criar centenas de amigos íntimos em algumas semanas. Ou não, afinal esses livros tentam enquadrar velhos fantasmas que me assombraram, e esses fantasmas estão por aí desde sempre, embaixo da cama ou no canto escuro do quarto de todo mundo. A vaidade que me resta é não ter estragado inteiramente as histórias – é ter confiado nelas, é ter deixado que se contassem sem dar explicações ou tentar converter ninguém a coisa nenhuma.

Neste mês fui a uma escola municipal numa das vilas mais pobres de Porto Alegre. Como foi num dia de temporal, a vila estava pelo avesso. Nem Gotham City depois do apocalipse pareceria pior.

A alegria do encontro não foi a mesma. Foi uma alegria terrível.

Na chegada, uma professora me disse que no começo não sabiam bem como lidar com meus livros. Como eles em geral tratam de medo – bruxas, gigantes, ogros, diabos e, pra completar, a morte em pessoa – e como ali o medo é muito concreto, acharam que podiam assustar as crianças. Veja, na primavera o medo aumenta, porque se aproxima a época dos indultos. Com vários presos de volta, há o encontro com velhos inimigos, sempre promessa de tiroteios e facadas.

Mas as crianças não se assustaram com meus livros. Diante da leveza e fantasia deles, se sentiram à vontade pra quebrar a lei de silêncio que os adultos estabelecem pra certos temas. Mais uma vez se descobriu que não se deve proteger as crianças de uma história, mas da realidade que inspirou essa história. Mais uma vez ficou evidente que histórias indiretas têm mais chances de levar a uma conversa direta, ou de estabelecer uma espécie de realidade paralela onde podemos nos experimentar sem a sensação de subir os quatro proverbiais degraus do patíbulo.

As crianças não conheciam a expressão “morrer de morte morrida”, apenas a “morrer de morte matada”. A partir disso, uma professora teve a ideia de perguntar como seria uma morte natural ou mesmo feliz. Bom, meus caros, era aqui que eu queria chegar, com toda esta minha conversa. Porque depois de lerem os Contos de morte morrida, de desenharem, encenarem, filmarem, de recontarem, as crianças puderam pensar com calma. Transcrevo abaixo algumas das ideias delas com apenas um comentário: essas crianças têm menos de dez anos.

– Minha avó morreu feliz porque não foi de bala perdida, morreu de diabetes. Seria bom morrer dormindo, porque acordado é ruim. Morrer estuprado também deve ser horrível.

– Morrer rindo.

– Morrer sem dever nada pra ninguém.

– Minha avó morreu com 106 anos, feliz porque não levou tiro, nem facada.

– Morrer em paz. Meu vô queria morrer porque estava doente e sofrendo.

– Morrer ao lado dos filhos.

– Meu pai não morreu feliz, ele morreu de tiro.

– Não morrer com dor, estar com amigos e família.

Ainda a morte na escola

No final, uma professora veio falar comigo pra me contar como tinha descoberto meu livro. Quando trabalhava em outra escola, um aluno não apareceu na aula numa manhã. Veio no outro dia, fora de horário, pra falar com ela: o pai tinha morrido e ele queria um livro que falasse da morte pra ver se entendia o que tinha acontecido. Como não achasse nada na biblioteca da escola, também numa vila, ela foi numa grande livraria e encontrou Contos de morte morrida. Foi uma sorte, porque quase nunca se encontram meus livros em lugar nenhum. A professora o comprou e emprestou pro menino. Dali a alguns dias, quando ele devolveu, disse pra professora: acho que agora eu sei o que aconteceu.

Já passei por outras situações parecidas com este mesmo livro e mais uma vez o que senti foi contraditório. Esses velhos contos, com seu humor seco, não são um esparadrapo pra colar sobre o câncer. Sejamos explícitos, que Deus me perdoe: não vendem esperança nenhuma. São apenas uma mão no ombro, uma voz dizendo sinto muito, meu caro, as coisas são assim. Vamos falar disso?

Autor

Ernani Ssó

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