Pois não é que descobriram o sardento príncipe Henry em sua tarefa de soldadinho da rainha em pleno (e perigosíssimo!) Afeganistão! Estes jornalistas irresponsáveis: revelar o paradeiro do menino dourado da nobreza britânica, colocando em risco sua segurança! Imperdoável!
Sarcasmos à parte, mais uma vez rola o debate sobre os deveres e os direitos da comunicação social. Luke Baker, da Reuters, assina artigo em que a questão é: “agora que o mundo sabe que o príncipe Henry está no Afeganistão foi correto o silêncio das mídias sobre a notícia, durante tanto tempo?” Foram, afinal, dez semanas de acobertamento da presença do herdeiro real no front, uma coisa muiiiiiito estranha nesta época de informação imediata e insaciável busca de cardápio para abastecer os noticiários.
Segundo Baker, a coisa funcionou assim: o Ministério da Defesa do Reino Unido, as mídias britânicas e selecionadas mídias internacionais fizeram um acordo de não informar sobre o envio do príncipe ao Afeganistão, em troca de receber, regularmente, fotos, vídeos e textos sobre suas atividades diárias assim que a tarefa de quatro meses se completasse.
Parênteses: algo assim como guardar a notícia na gaveta para usar quando houvesse sinal verde das autoridades. Em pleno século 21!
Entenderam bem? Foi feito um acordo que, desde o início, estava fadado a entrar pelo cano. Havia, até, uma espécie de aposta para saber quem abriria a boca primeiro e, claro, o suspeito principal foi a turma dos chamados tablóides sensacionalistas. Surpresa: os signatários do pacto teriam cumprido sua parte, e a culpa pelo vazamento foi imputada a estranhos no ninho protetor construído por mídias e governo para Henry.
Os boatos foram divulgados aos poucos: um site australiano levantou a lebre em janeiro, mas não tinha muita bala na agulha para levar a conversa adiante. O jornal alemão Bild publicou, então, uma notícia, esta semana. Ainda assim, o Ministério da Defesa esperou que a coisa não fosse adiante. Até que o blog Drudge Report , dos Estados Unidos, abraçou a matéria. Fim do acordo, liberou geral. Agora, o garotinho chegado num baseado e nas noitadas vai voltar para casa, até meio contrariado, segundo outras matérias.
Com a história escancarada na rede mundial, houve jornalistas (incluindo dos grupos do tal pacto) que passaram a questionar a combinação. Jon Snow, apresentador de notícias do Channel 4, reclamou, no seu blog que o imbroglio podia arranhar a credibilidade das empresas de comunicação. “Será que os espectadores, leitores e ouvintes voltarão a confiar nos donos das mídias?” questionou.
Até a vetusta e respeitada senhora que é a BBC indagou se não havia gasto mais tempo e esforço com a chamada “História de Henry” do que com assuntos mais importantes sobre o que ocorre no conflito no Afeganistão.
Tem gente que foi mais fundo, como Tessa Mayes, do Spiked Online, de Londres, que acusou as mídias de fazer acordos “especiais” com a realeza, algo que, segundo ela, tinha razão de ser quando Henry e William eram pequenos, mas agora, que são barbados, não tem nada a ver. “O papel do jornalista não é virar um braço informante do Exército, mas manter um grau de independência”, disse dona Tessa.
O mais curioso é a última frase do artigo de Baker: “A Reuters, assim como outras grandes agências de notícias, participou do embargo por considerá-lo apenas um dos que freqüentemente realiza”. Assumindo sua mea-culpa. Britanicamente, é claro.
