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A nudez protestante

Digo, protestante não no sentido religioso, mas de protestar contra alguma coisa. Foi o seguinte: uma voluntária ficou nua num prato gigante com sangue …

Digo, protestante não no sentido religioso, mas de protestar contra alguma coisa. Foi o seguinte: uma voluntária ficou nua num prato gigante com sangue simulado e com guarnição de repolhos diante de um mercado em Barcelona para sensibilizar a clientela carnívora. A performance foi organizada pela AnimaNaturalis, que garante que a indústria da carne mata mais de 50 bilhões de animais para servir como comida, e grande parte destas mortes ocorre no Natal.

Eu realmente fiquei sensibilizado. Ou mais, fiquei com água na boca, porque a moça era muito bonita. É isso mesmo, em vez de ficar chocado com a matança de animais, nem consegui pensar nela.

Como a eficácia desses protestos é no mínimo dúbia, penso no óbvio: há um bando de marmanjos falando da importância de se tirar a roupa e há um bando de mulheres fazendo de conta que acreditam. Se os dois bandos estão de acordo e se divertindo, tudo bem. Depois, isso é muito melhor do que dar uma de monge budista: despejar um galão de gasolina no lombo e riscar um fósforo.

Dicionário do mau digitador

Busdista. O ônibus dos monges.

A arte de amar

A Penguin-Companhia acaba de lançar uma edição de A arte de amar, do Ovídio. Eu sou fã do homem. Às vezes o releio pensando no que acontece com nossos poetas, todos tão moderninhos, mas que soam como velhos caquéticos ao lado do Ovídio. Não têm sua atualidade nem sua naturalidade, naturalidade assombrosa, por sinal, aliada a um humor e alegria à prova de balas. Parece que quase ninguém ouviu falar que há uma arte de parecer sem arte ou que a arte imita o acaso.

Deu no jornal

“Afegã pega 12 anos de prisão por ter sido estuprada.” Segundo as leis deles, foi adultério. Olha, eu entendo esse negócio de relativismo cultural, mas isso não é cultura, é só ignorância mesmo.

Dias depois leio que ela foi perdoada. Mas terá de se casar com o estuprador. E há gente que acha Kafka complicado.

Outra que deu no jornal

Em Portugal há um reality show em que, para poder ser aceito, o cara se compromete a contar um segredo. Joel Guedes, de 21 anos, disse que sabia quem era o Estripador de Lisboa: José Pedro, 46, pai dele. Joel não foi aceito no programa, acho que porque os crimes que denunciava tinham prescrito. Mas uma jornalista investigativa, Felícia Cabrita, foi atrás da história e publicou tudo.  José Pedro, provavelmente só pra aparecer no jornal, admitiu ter esfaqueado as três prostitutas que lhe valeram a fama e mais duas, uma na Alemanha e outra no interior de Portugal. Como disse que andava com vontade de matar de novo — as prostitutas foram escolhidas por parecerem com a mãe dele, que Freud o abençoe —, foi preso. Talvez seja processado pela última morte, única que não prescreveu. Olha, sou mais a Carmen Miranda, que botava bananas e abacaxis na cabeça pra aparecer.

Cabrita

Achei engraçado uma repórter investigativa se chamar Cabrita e pensei: esses portugueses. Mas, olhando a embalagem de um remédio de cachorro contra parasitas, descubro que o responsável técnico se chama Pulga. Não acredito que nome seja destino, mas que tem gente influenciável, tem.

Os perigos do politicamente correto

Esses dias o Verissimo comentou que seria chato, por exemplo, chamar um “anão de prejudicado verticalmente”.

Autor

Ernani Ssó

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