Em “Huckleberry Finn”, lá pelas tantas Mark Twain escreve “big nigger”. Monteiro Lobato traduziu por “negrão”. Sérgio Flaksman, nos anos noventa, por “escravo alto”, que pode ser uma opção muito bonitinha em termos políticos, mas literariamente é um desastre. Não é só que a expressão negrão seja mais forte. Ao alterar a frase, se altera o caráter da personagem que fala e, idiotia suprema, se confunde o autor com seus personagens. É mais ou menos a mesma coisa que acontece com essa gentalha que vê novela na televisão. Esses dias uma mulher deu um tapa na cara de uma atriz no supermercado porque a personagem dela na novela é muito assanhada, passa o marido pra trás.
Deu no New York Times
Trecho de um artigo de Michiko Kakutani: “Será que ainda não aprendemos que retirar livros do currículo apenas nega às crianças o contato com obras clássicas da literatura? Pior, isso alivia os professores da responsabilidade fundamental de colocar esses livros em contexto — ou de ajudar os alunos a entenderem que ‘Huckleberry Finn’ é na verdade uma acusação poderosa contra a escravidão (com o Negro Jim como seu personagem mais nobre), e usa essa linguagem controversa como uma oportunidade de explorar as dolorosas complexidades das relações raciais no país. Censurar ou editar livros das listas de leitura das escolas é uma forma de negação: é fechar a porta para as duras realidades históricas — reinventando-as ou fingindo que elas não existem.
“A tentativa de Alan Gribben de atualizar ‘Huckleberry Finn’ (publicado em uma edição com ‘As Aventuras de Tom Sawyer’ pela New South Books), assim como a afirmação de John Foley de que se trata de um livro antigo e ‘que estamos prontos para o novo’, ratifica a crença contemporânea narcisista de que a arte deve ser inofensiva e acessível; que os livros, peças e poesias de outras épocas e lugares deveriam de alguma forma se adaptar para se conformar às ideias democráticas de hoje. Um exemplo disso foram as iniciativas politicamente corretas da década de 80 para retirar Conrad e Melville da lista de grandes autores porque o trabalho deles não mostra muitas mulheres ou projeta atitudes colonialistas.
“Os textos originais dos autores deveriam ser propriedade intelectual sacrossanta, quer o livro seja um clássico ou não. Mexer nas palavras de um escritor revela tanto um orgulho extraordinário por parte dos editores, quanto a atitude desleixada de cada vez mais pessoas nessa época de mash-ups, sampling e livros digitais — a atitude de que todos os textos são substituíveis, que os leitores têm o direito de alterá-los como bem entenderem, que a própria ideia de autoria é ultrapassada.
“Os esforços para ‘desinfetar’ a literatura clássica têm uma história longa e pouco distinta. Tudo desde as ‘Canternbury Tales’ de Chaucer até ‘Charlie e a Fábrica de Chocolate’ de Roald Dahl vem sendo contestado ou já sofreu nas mãos de editores exagerados. Houve até versões purificadas da Bíblia (sem todo o sexo e violência!). Às vezes a necessidade de expurgar (senão banir totalmente) vem da direita, de evangélicos e conservadores, preocupados com a blasfêmia, linguagem profana e linguajar sexual. Grupos fundamentalistas, por exemplo, tentaram banir os dicionários por causa das definições oferecidas para palavras como quente, rabo, bola e ovos.
“Em outros casos o impulso de ‘limpeza’ vem da esquerda, ansiosa por impor sua própria visão de mundo multicultural e feminista e preocupada com ofender religiões ou grupos étnicos. A versão cinematográfica de Michael Radford para ‘O Mercador de Veneza’ de 2004 (com Al Pacino no elenco) revisou a peça para omitir qualquer material potencialmente ofensivo, oferecendo um Shylock mais simpático e agradável e cortando questões difíceis sobre o antissemitismo. Mais absurdo ainda, uma companhia britânica de teatro em 2002 mudou o título de sua produção de ‘O Corcunda de Notre Dame’ para ‘O Tocador de Sino de Notre Dame’.”
Bons sentimentos
Quem foi mesmo que disse que bons sentimentos não dão boa literatura? Agora, bons sentimentos aliados à tacanhice, minha nossa.

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