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A primeira vez que não vi Paris

“Quem nasceu para andarilho inventa ventos em si …” (Aparicio da Silva Rillo) Eu gostaria muito de ter sido escritor ou poeta quando vi Paris …

“Quem nasceu para andarilho inventa ventos em si …”

(Aparicio da Silva Rillo)

Eu gostaria muito de ter sido escritor ou poeta quando vi Paris pela primeira vez. Talvez pudesse ter escrito um romance à Ernest Hemingway ou um poema à Paul Verlaine. Eu era ridiculamente jovem e, por mais vezes que retorne, nunca mais reencontrei aquela Paris dos meus 20 anos. Quando somos jovens e cheios de energia, ainda não sabemos ler as velhas cidades. Corremos para lá e para cá, nos enfiamos no metrô, desembarcamos em um grande boulevard, sem entender onde estamos. Olhamos para tudo, mas enxergamos muito pouco. E Paris, com seus oceanos de estórias e lendas, permanece indecifrada, à espera que voltemos um dia, mais contemplativos e menos gulosos. Somente então, seremos capazes de flanar com a sabedoria de Balzac ou de Baudelaire.

Na verdade, velhas damas como Paris não se deixam conquistar com facilidade, apenas permitem que fiquemos perdidamente apaixonados.  E, como grumetes de primeira viagem, nos contentamos com os encantamentos fáceis – vamos ao Folies Bergère, ao Moulin Rouge e nos sentamos, falsos contemplativos, nos cafés dos boulevards.

***

Éramos poucos, a mocidade em férias, adolescentes deslumbrados e perdidos, em uma Europa dividida em fronteiras e falando um idioma diferente a cada três dias. Desembarquei na Gare du Nord, carregando A Moveable Feast debaixo do braço e recitando os versos de Verlaine:

“Les sanglots longs

Des violons

De l’automne”

“Blessent mon coeur

D’une langueur monotone”

De maleta em punho, mesmo antes de procurar pelo hotel, queria ver o Arco do Triunfo, para ler os nomes dos generais e das grandes batalhas de Napoleão Bonaparte. Precisava daquilo para me convencer que, finalmente, havia chegado à Cidade das Luzes. Mas anoitecia e fui até o Boulevard Saint-Michel em busca de meu hotel. O quarto era acanhado, mas da janela eu podia admirar a cúpula da Sorbonne. Da rua, subiam ruídos do trânsito, vozes da esplanada de um café e o som de um violino mal-tocado. Era real – já não estava mais sonhando.

***

A excitação pelas descobertas que estão por vir adormece as emoções de nossas chegadas. Mas, hora a hora, assomam as alegrias do reconhecimento – ruas, praças e a paisagem são as mesmas de nossas viagens de fantasia. Aquela não era mais a primeira visita a Paris. Eu estava passando por lugares onde já estivera, nos filmes de Jean Gabin, Michéle Morgan, Jacques Tati e nos livros de Emile Zola e Marcel Proust.

Carregava comigo a certeza de que, ao dobrar uma esquina em Montmartre, veria La Goulue e Jane Avril, fugidas de um cartaz de Toulouse Lautrec. Ou, encontraria em algum lugar do Quartier Latin, as costureiras românticas do coro de La Bohème.

Meus personagens favoritos me acompanham nas andanças pelas ruas – ali, no Café de Flore, Jean Cocteau e Jean Marais tomam um café-crême na varanda. No número 27 da rue de Fleurus, Gertrude Stein se reune com a “geração perdida” dos anos 30. Era ela mesmo, dizendo aos expatriados:

“Nunca se chega a Paris pela primeira vez.”

Para mim, já era uma certeza – eu havia estado aqui, não saberia dizer quando, mas não enxergava a cidade com olhos do forasteiro que visita meia dúzia de cidades e depois não sabe de nenhuma.

Eu estava refazendo a caminhada pelo cais do Sena, por entre os vendedores de livros e gravuras. Depois, no pequeno jardim atrás de Notre Dame, admiro os gárgulas e os apóstolos de pedra. Leve e à vontade, vou flanar por cours e ruelas, para repetir caminhares de Émile Zola, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Jacques Maritain, Georges Simenon…

***

Sonhadores nunca visitam Paris pela primeira vez. Eles nascem, vivem, amam e sonham em morar em uma mansarda da Rive Gauche.

Nelson Rodrigues dizia que muitos morrem de amores por esta cidade, sem nunca terem visto o Sena ou ouvido tocar os sinos em Sacré- Coeur. Felizes dos que lá estiveram e carregam consigo a festa móvel. 

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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