Eu queria escrever, numa cena do romance que tento libertar de um rochedo maior que o de Gibraltar, a expressão “pelas bleuras”. Não consta nem no Houaiss nem no Caldas Aulete, os oráculos que abro logo cedinho. Mas também não consta num dicionário de português informal que está na rede e que uso como prova dos nove. Então, googlei e descobri um ótimo sujeito, Luiz Antonio Simas: bem humorado, claro, com um texto em brasileiro, essa língua saborosa, porém esquiva. Ele tem um blog ou coisa parecida chamado Histórias Brasileiras. Foi aí que me deparei com a bela versão do impeachment do Fernando Collor de Melo, além da expressão pelas bleuras usada na boa.
Numa entrevista à Playboy — aquela que a gostosa da capa é a Alessandra Negrini —, o Collor revela que descobriu, numa sessão de regressão hipnótica, que foi o imperador dom Pedro I. O Collor se viu de bigodes, ao lado de dom João VI, andando de velocípede pelos salões imperiais e atropelando seu irmão mais novo, dom Miguel. Todo o processo de defenestração do Caçador de Marajás não passou, como se vê, de uma vingança bastante tardia — e exagerada, a meu ver.
Impressionado, Luiz Antonio Simas pesquisou outros casos de reencarnação. Gostei de todos, mas especialmente destes:
Um artista plástico foi um ovo de codorna comido pelo poeta Olavo Bilac na Confeitaria Colombo, durante a Belle Époque carioca.
Um lutador de vale tudo descobriu que foi uma cigana sensual, amante de um vice-rei, assassinada numa taberna de Sevilha, no século 17.
A Mulher Abacate, funkeira, numa sessão com um famoso terapeuta norte-americano, se viu na Europa, século 19, como um homem barbudo, que falava alemão e escrevia o tempo todo sobre economia e filosofia. Outro detalhe: tinha um amigo chamado Frederico. A Mulher Abacate, segundo Simas, não entendeu direito seu processo regressivo e não faz a mínima de como esse passado marca sua vida atual.
Confesso, fiquei inclinado a fazer também uma sessão de regressão. Mas depois pensei melhor. Eu já sei o resultado. Na certa fui bobo em várias cortes ou palhaço de circos mambembes. Quer dizer, sigo o mesmo, em versões cada vez mais desbotadas.
Seduza mulheres
Toda semana recebo, umas três ou quatro vezes, um e-mail que promete me ensinar a seduzir e conquistar mulheres. Nunca abri, mesmo que, em algum recanto obscuro de mim, minha porção maior-tarado-de-Curitiba gema e salive. Esse e-mail chegou tarde. Nestas alturas, as mulheres que eu gostaria de seduzir e conquistar me chamam de tio, sem outro laço de parentesco que Adão & Eva. Tio é melancólico demais, não? Último degrau antes do degrau derradeiro, o do vovô, quando até o Viagra se torna perigoso, se é que lembramos pra que serve.
Falando em spam
Outro que recebo seguido é de uma fulana que promete me revelar os segredos de como se ganha na loteria. Certo, os cretinos são legião, mas existe cabeça oca o suficiente pra acreditar numa proposta dessas? Pensando bem, acho que existe. Se alguém se dá ao trabalho de mandar um spam desses, é porque pensa que o resto da humanidade tem seu mesmo nível de vazio mental.
Salvação
Uns encontram Jesus, eu encontrei Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. Eles me salvaram da solenidade, da chatice, da presunção. Eles me salvaram dos lugares-comuns, das facilidades, da seriedade como profissão. Eles me salvaram do palavrório obscuro e do sentimentalismo, embora, aí, o risco fosse mínimo. Também me salvaram de pensar que livro angustiado é sério apenas por ser angustiado. Oro por eles toda noite.
Encontrei Cortázar, encontrei Borges, como encontrei no mínino mais uns dez, mas não me tornei devoto deles. Me tornei devoto do humor, da invenção, da fluência, da economia de palavras, já que a de dinheiro está fora do meu alcance. O fato de eu ser um escritor de meia tigela não é culpa de ninguém. Nem Jesus salva o cara da falta de talento.

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