Procurando um ditado brasileiro similar a um esgrimido por Sancho Pança, difícil de traduzir por causa das rimas, topei com coisas espantosas, como este parágrafo atribuído ao Luiz (sic) Fernando Veríssimo: “Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu”.
Ou o Veríssimo enlouqueceu ou o autor da página que consultei nunca leu uma linha dele. Ou o caso é mais grave? Talvez o autor da página quisesse difamar o Veríssimo. Ou, muito pior, quisesse homenageá-lo. Ou será que ele mesmo escreveu esse discurso de mestre-escola e acrescentou um nome ao acaso como quem pinta de dourado um vaso de lata?
As atribuições falsas na internet se parecem um pouco com a literatura psicografada. Ateus se tornam cristãos praticantes, humoristas ferozes se tornam sentimentais babosos, grandes estilistas passam a produzir um texto definido pelo Edmund Wilson como sopa de serragem, eruditos passam a dar conselhos encontrados no Almanaque Capivarol. Assim vai. Está pra surgir a atribuição falsa ou o livro psicografado que esteja no mesmo nível do suposto autor, nem digo mais inteligente e mais espirituoso.
Noutra página encontrei o seguinte, que transcrevo com todos os erros ortográficos e de pontuação: “Provérbio ou dito: Águas Passadas não movem moinhos. Significado: O que passou passou, bola pra frente. Histórico: A frase é de Cerventes, mop capítulo VI de sua obra máxima, Dom Quixote de la Mancha. Foi dita pelo seu fiel escudeiro Sancho Panza, que insistia em mover um moinho com a própria urina. Como todos sabem, Sancho tinha uma encontinência urinária. Mas mesmo assim, era impossível. Depois de várias tentativas, Dom Quixote tentou mover o moinho com a própria espada, em célebre cena. Não deu em nada. E ele escreveu: ‘Vamos embora, isso não vai dar em nada…’. Outra fonte diz que a origem da expressão seria holandesa, mas não há registros escritos”.
É tudo tão idiota que nem merece comentário. Suspeito que o “encontinente” autor está de sacanagem, porque basta abrir o Quixote no sexto capítulo, tanto no primeiro como no segundo volume, pra descobrir o chute. Mas ele sabe que ninguém vai fazer isso e mais, deve estar se torcendo de rir ao pensar nos que vão passar adiante essa baboseira, se sentindo eruditos ainda por cima.
Nunca foi fácil se defender da ignorância e da desinformação. Mas, se lidamos com um livro ou um jornal, temos um autor ou um órgão pra botar contra a parede. No anonimato da internet, estamos perdidos na biblioteca de Babel do Borges, onde pra uma linha razoável ou uma notícia correta há léguas de insensatas cacofonias, de despropósitos verbais e de incoerências.
Quixote e Sancho
Cervantes estava mais orgulhoso pela criação de Sancho que de Quixote. Mas, como observa Borges, acreditamos em Quixote desde o começo, desde o primeiro parágrafo. Sancho, que oscila entre a sabedoria e a tolice, entre uma linguagem mais culta e a do camponês bronco, em minha opinião deixa transparecer a mão do autor. Eu pelo menos acredito mais nele quando está de boca fechada, ou quando a abre pra comer e empinar o odre de vinho.
Amigos do Quixote
O padre e o barbeiro são pintados como amigos de dom Quixote. Mas o modo como se divertem com os espancamentos que o velho cavaleiro sofre, alguns propiciados por eles mesmos, me deixa na dúvida. Talvez essa falta de compaixão em gente que alardeia seu catolicismo tenha um motivo mais profundo que a simples crueldade. Talvez Quixote, com sua aposta na justiça e na bravura a qualquer preço, seja uma espécie de acusação à aceitação resignada dos fatos da vida. O riso do padre e do barbeiro é a vingança de quem não pode mais argumentar, como aquele que espanca uma criança birrenta ou esfrega o nariz do gato no coco.

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