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A sátira e o satirista banguela

Gozado, acho as sátiras necessárias, gosto de ler sátiras e gosto de escrever sátiras. Como se vê, também gosto de repetir a palavra sátira. …

Gozado, acho as sátiras necessárias, gosto de ler sátiras e gosto de escrever sátiras. Como se vê, também gosto de repetir a palavra sátira. Mas quase nunca as leio e escrevo-as menos ainda. Como se isso não fosse suficiente, quando por acaso escrevo uma, esqueço de publicar, como o conto abaixo. O pobre deve ter pelo menos uns quinze anos e foi inspirado numa dessas bienais.

Sem título

Coisas do jornalismo, você sabe: na segunda, estava escrevendo dez linhas sobre a coleta do lixo seletivo, na terça duas páginas sobre artes plásticas, na quarta despedido sumariamente. Não culpo ninguém, não. Se fosse culpar, a lista não tinha mais fim. Veja, se os nervos do Gustavo não tivessem pifado, eu continuaria até hoje naquele negócio de lixo, buraco na rua, poste caído. Mas os nervos do Gustavo pifaram, não havia ninguém à disposição, o Marco me chamou. Aí, se o Marco não tivesse recebido um telefonema da mulher mandando ele pra puta que o pariu, ele não teria tomado porre nenhum e teria se virado na hora que deu a louca nos computadores.

Fiquei inseguro pra cacete. Nunca entendi nada de artes plásticas, mal faço a casinha aquela com fumaça saindo da chaminé, ou a ilha com coqueiro no meio. Quando perguntei pro Marco por que o Jean-Paul se chamava Jean-Paul, se era de Bagé, o Marco nem me olhou, mas nunca esteve tão parecido com um búfalo desses do faroeste. Você lembra? Peludo, entroncado, furioso. Mas ao falar, era uma seda. Não enganava ninguém. Nem queria enganar. Nunca o desprezo dele estava mais na cara.

Me disse que não pedia uma crítica. Eu tinha de cobrir a exposição do Jean-Paul como cobria os buracos da rua. Anotasse os dados, as opiniões dos críticos, o que o próprio Jean-Paul tinha a dizer, mais nada. Duas páginas, muitas fotos. Matéria assinada.

Não sei se você se lembra, mas era uma retrospectiva do Jean-Paul: vinte quadros da fase amarela, quinze da fase azul e a grande novidade, dez novos quadros da última fase, as telas cruas, como eram chamadas. Todos os quadros mediam 1m50cm por 2m. Os da fase amarela tinham sido pintados com tinta acrílica, muito brilhante, com um rolo de pintar parede, porque um pincel poderia deixar alguma marca. Nenhuma manchinha distinguia um quadro do outro. A diferença estava nos títulos: Girassol I, II, III… Segundo um crítico, Jean-Paul ia mais longe que Van Gogh, dava o passo definitivo, o passo que ele não tivera coragem de dar: chegar à essência do girassol. Era ainda uma sátira, uma provocação ao figurativismo, à passividade mental de certo público.

Os da fase azul tinham sido pintados com um rolo também, mas com tinta plástica comum. O azul era sempre o mesmo, o dito celeste. De novo a diferença estava nos nomes: Azul I, II, III… Os críticos deliraram com a radicalidade do artista. A pintura enfim tinha se libertado da figura, ou mesmo das emoções que animavam os abstratos: a pintura era o seu próprio motivo, estava reduzida à cor, mais: a uma cor apenas. Durante a entrevista, Jean-Paul me perguntou de que cor era o céu. Como a criança que diz que o cavalo branco do Napoleão é branco, respondi: azul. Aí Jean-Paul, com a mesma cara zen de sempre, me disse que não, que o céu não tem cor nenhuma, nós é que o enxergamos azul. Você não imagina o silêncio que eu sofri até a próxima pergunta.

Nas telas cruas, Jean-Paul dava o passo definitivo: a tela em branco. Perguntado se não era um plágio tardio do memorável quadro Branco sobre branco do russo Casemir Malevitch, Jean-Paul explicou, com seca amabilidade, que as dimensões de suas telas eram outras. Mais: suas intenções eram outras. Nele, Jean-Paul, não havia ironia, somente a busca sem misericórdia da sua verdade mais profunda. O próprio título, Branco sobre branco, remete à superfície, à própria pintura: o título oferece, enfim, um apoio, uma interpretação. As telas cruas eram isso apenas, telas. Abaixo, num cartãozinho, se liam as dimensões e a indicação: sem título. O amante da pintura tinha, assim, diante de si, um espaço vazio, mas altamente provocativo: um espaço à espera dele, amante da pintura. Não era pintura, era um convite ao confronto. As reações, entusiásticas ou indignadas, não importavam, mas sim os segundos de estranhamento em que a pessoa se perguntava, sem mesmo querer se perguntar, que diabos estava fazendo ali, quem era ela afinal?

Confesso que me impressionei. A convicção dos críticos, as palavras efervescente de Jean-Paul, me converteram. Ainda meio alto, fui ver as telas. Foi um erro. Como dizia o Jaguar sobre o cinema brasileiro, o filme é uma merda, mas o diretor é genial. As palavras de Jean-Paul eram fogo e gelo, uma cachaça, a fé do analfabeto jurando com a mão sobre a Bíblia. Não tinham nada a ver com a insipidez daquelas telas. Cheguei a pensar em falar com Jean-Paul: ele devia dar o passo seguinte, o mais radical de todos — deixar a arte pra lá e só dar entrevistas.

Voltei pra redação e tratei de escrever minha matéria. Olha, foi mais difícil do que arrancar os pentelhos do anão com um alicate, como se diz. Era quase meia-noite, todo mundo tinha ido embora e lá estava eu, como o condenado na cadeira elétrica à espera da volta da luz. O Marco não dizia nada, só me olhava, mas pelo jeito nem me via. Não sei o que me deu. Eu era um jornalista mais do que calejado, capaz de escrever cem linhas sobre um buraco, enquanto fazia mentalmente a lista do super, ou o que faria com a Michelle Pfeiffer e a Gong Li se nos encontrássemos numa praia deserta. Cada palavra me custava. A cada palavra eu me sentia mais oco, sem falar que meio enjoado, mas isso era por causa de uma batida de abacate que eu tinha tomado temerariamente com um bolo inglês.

Enfim cheguei ao ponto final. Eu estava tão cansado e zonzo, que nem me dei conta de que o Marco levou horas lendo. Podia ter lido umas quatro ou cinco vezes o diabo da matéria. Se o Marco não gostasse e me mandasse fazer tudo de novo? Pois olha, não pensei nisso. Não pensei em nada. Eu estava atento ao abacate e às suas voltinhas nas minhas tripas. Até me surpreendi quando o Marco disse: pode ir. Não mexeu numa vírgula.

Fui direto pro banheiro. Quando voltei, o mundo começara a acabar: a mulher do Marco tinha ligado e ele dera o fora, sem avisar ninguém. Dois minutos depois, pane nos computadores. Infelizmente não fui esperto o suficiente pra sair de fininho. Meia hora depois, os computadores ressuscitaram: o estrago tinha sido pequeno — apenas a minha matéria se dissolvera no ciberespaço. Devia haver um backup em algum lugar, mas ninguém conseguiu achar. Talvez o Marco usasse alguma senha, sei lá. Mas o Marco só foi encontrado no outro dia, pela tarde, em coma alcoólico.

Cheguei a começar a escrever tudo de novo. Mas lá pelas tantas me deu uma coisa: uma espécie de raiva, mas uma raiva fria, me entende? Não? O que interessa é que aí tive a ideia. Abri as duas páginas com a manchete que anunciava a exposição. No espaço das informações, pedi pro ilustrador sobrepor seis textos diferentes. Cada um podia ter apenas uma palavra, qualquer uma, até um palavrão, ou melhor, devia ser um palavrão. O mesmo processo devia ser usado nas legendas sob as fotos dos quadros e do artista. Entusiasmado, transformei a manchete no mesmo empastelamento e reservei uma coluna pra crítica: uma coluna em branco, com o título Crítica em cima e meu nome embaixo. Não satisfeito, abri um pequeno box onde se informava que os quadros todos tinham sido comprados por um milionário excêntrico, que exigia anonimato. Quando o marchand de Jean-Paul tinha ido descontar o cheque, descobrira que não havia fundos. Interrogado, o milionário dissera que não tinha importância, já que ele pretendia doar os quadros pra um museu inexistente. A vantagem do museu inexistente, acrescentara, era que o público, também inexistente, não precisaria sair de casa pra ver coisa nenhuma.

Aí deu no que deu.

Autor

Ernani Ssó

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