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A síndrome da bruxa boa

Dei uma espiada numa coleção infantil escrita por uma doutora em letras. É sempre a mesma história: crianças entram em contato, por exemplo, com …

Dei uma espiada numa coleção infantil escrita por uma doutora em letras. É sempre a mesma história: crianças entram em contato, por exemplo, com vampiros, gigantes, peixes monstruosos, mas não há medo, não há ameaça. Todos são bonzinhos, dão presentes pras crianças e partes de seu corpo pra serem comidas. Não há dor, e essas partes se regeneram. Mais, essas partes são guloseimas. Enfim, a aventura é uma espécie de passeio ao shopping com lanche grátis. Tudo começa bem e acaba melhor ainda. Não há nem um flanelinha querendo um trocado pra guardar o carro.

Isso é literatura? Não, apenas uma fantasia — uma fantasia cor-de-rosa, pobre de dar pena, de uma covardia extrema. O mundo dela pode parecer perigoso nas primeiras linhas, mas em seguida se vê que é mais amigável que os Ursinhos Carinhosos. É um mundo vazio de conflitos, as guloseimas chovem do céu como maná. Num mundo desses, me parece, os jornais não têm seção de polícia. Que digo? Num mundo desses não há polícia. E todas as crianças dormem com a luz apagada sem problema nenhum.

Essa autora sofre da síndrome da bruxa boa, nome que cunhei em homenagem a um livro da Lya Luft. Mas, atenção, não existe bruxa boa (na literatura infantil, bem entendido). Se é boa, é fada. Há escritores que, na ânsia de não ouvir o choro das crianças, eliminaram os vilões dos livros. Isso é tão idiota que me parece triste. É o mesmo que dar água com açúcar pra que passe a dor do câncer. Não manjam patavina da natureza humana, nem ouviram falar de literatura, ou manjam e ouviram mas não sabem lidar com elas na hora de falar com as crianças.

Literatura são os contos de fadas, que tratam de abandono, solidão, fome, morte, medo de ser devorado ou abusado, ou trata da busca de nossos pares e do sofrimento de crescer. Nas fantasias dos contos de fadas, as crianças triunfam enfrentando os perigos com coragem e astúcia, ou com ajuda de fadas ou animais mágicos. O mundo tem gente boa? Tem. Mas, cuidado, está assim de gente malvada, de gigantes, de bruxas, de monstros. Não vire as costas pra eles. Aprenda a se virar ou você está frito. A vovó Luft não vai vir te salvar.

Reality show

Me disseram que há um novo, chamado Mulheres Ricas. Aguardo a concorrência com novas maravilhas, como Bichas Remediadas, Políticos Honestos e Padres Canoros.

Autor novo

Estou lendo um escritor novo, mas já no terceiro ou quarto livro, elogiado por um monte de gente conhecida. Peguei torcendo pra gostar. Eu gosto de gostar. Gostar de muitos escritores é ter muitos amigos que a gente curte só em seus melhores momentos. Mas os personagens desse moço não falam nem conversam, dialogam. Também não se espantam nem se impressionam, se impactam. Nunca têm a intenção de fazer alguma coisa, intencionam. Gozado isso. Drummond e José Cândido de Carvalho, por exemplo, eram funcionários públicos mas não tinham essa linguagem burocrática. Quem será que esse cara lê? PS: meu amigo Mário Goulart me disse que não dou o nome ao boi de medo. É verdade. Depois, esse negócio de ganhar inimigos gratuitamente cansa.

Raymond Carver

Amilcar Bettega me apresentou ao Carver. Fiquei deslumbrado e botei o conto “Penas” entre os que eu daria tudo pra ter escrito. Ano passado, salivando, comprei o 68 contos, numa bela edição da Companhia das Letras. Sabe o que me aconteceu? Carver me pareceu um escritor comum. Bom, às vezes muito bom, ou excelente como em “Penas”, mas comum. Não sei explicar muito bem. Quem sabe seja aquele velho sentimento: se eu nunca o tivesse lido, não teria me feito falta. Agora, se eu não tivesse lido Kafka ou Borges, me sentiria roubado, como uma criança que não aprendeu a nadar nem andar de bicicleta. O incrível nisso tudo é que deve haver muitos leitores pra quem Carver faz falta como água e muitos outros pra quem Kafka ou Borges é como olhar chover.

Autor

Ernani Ssó

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