Colunas

A síndrome do enviar

Bendita e santa internet, Batman. Foi o que escrevi num mail para uma pessoa querida que há muito não vejo e que eu tinha …

Bendita e santa internet, Batman. Foi o que escrevi num mail para uma pessoa querida que há muito não vejo e que eu tinha encontrado, en passant, numa das ocasiões em que fiz parte da tribo do orkut. Pois esta pessoa me reencontrou novamente, por aqui, pelo Coletiva, e me mandou uma longa mensagem. Claro que me comovi. Esta criatura faz parte de uma fase muito especial da minha vida, lá dos primeiros anos da década de setenta, quando eu começava no jornalismo, e era tão, mas tão magra, que o Celestino Valenzuela, que fazia parte do Sala de Redação (que eu ajudava a produzir) me apelidou de Desenho  – eu não devia ter nem perfil, imagino!  

Pois a internet tem disso: nem que a gente fuja dos tais sites de relacionamento, se postar um comentário em algum lugar e deixar lá o nome completo, ou se tiver um blog ou escrever para um site, com certeza, vai ser encontrada. Quanto aos chatos, se deleta ou bloqueia. Tudo tem solução.

A única coisa que é insolúvel, em especial na correspondência eletrônica, é a síndrome do envio sem pensar duas vezes. E como tem gente que faz isso! E, claro, depois se arrepende.

Antes, era mais seguro: se escrevia um bilhete ou uma carta e se ia reler linha por linha o conteúdo. Uma. Duas. Três. Dez vezes. Deixava-se tudo aquilo repousar, de preferência dentro de um livro bem grosso, para depois envelopar. Mais tarde, tinha de comprar selo. E – passo mais xarope do processo – precisava ir até o Correio. Então, dava tempo de evitar fazer uma besteira devidamente documentada, quem sabe para sempre, uma confissão, uma babaquice ou uma briga que passaria de mãe para filho, de filho para neto e terminaria sendo motivo de riso ou crítica décadas depois. Agora, tem o mail. É escrever e meter o dedão na tecla enviar. Assim, ao sabor da emoção.

Já fui vítima deste impulso várias vezes. Numa destas, fui vitimada pessoal e profissionalmente: eu estava publicando uma coluna semanal no Jornal do Comércio, graças ao apoio da Maria Wagner, minha amiga e parceira de tantos trabalhos. O tema, que eu propusera, era radiografar lugares e pessoas de Porto Alegre, com humor e humanidade. Na terceira colaboração, falei da fauna do Bar do Beto, das paqueras, daquele universo peculiar. Alguém, escondida atrás de um nickname, se ofendeu, escreveu uma crítica feroz e encharcada de preconceitos e de maldade à minha história e mandou direto para Pedro Maciel, diretor de redação, que a encaminhou para Maria, a editora, que me encaminhou para eu dar uma resposta. E eu, furiosa, dei, à altura da missivista misteriosa. Que, por sua vez, encaminhou o que escrevi de novo para Maciel, ameaçando cancelar sua assinatura do jornal. E adivinhem quem dançou?

Claro que eu poderia ter evitado este fato desagradável se tivesse sido uma moça bem comportada e não respondido com tanta franqueza para a tal criatura acobertada pelas sombras e sabe-se lá a serviço de quem. Mas fui no impulso. Burrice minha, eu sei.

Ainda vou neste embalo do momento. Mas já consigo reler mais de uma vez o que vou mandar via mail assim como o que vou postar nesta bendita e santa internet!  Este texto está com cara de auto-ajuda? Podem criticar: não vou responder no impulso. Acho que não!

Autor

Maristela Bairros

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.