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A solidão do comentarista

Por Carlos Guimarães

O Grêmio foi campeão do Gauchão 2020. Com méritos. Fez a melhor campanha, foi implacável nos Grenais, teve o artilheiro da competição, o melhor jogador e demonstrou ter sido, nesta competição, a melhor equipe. O título é incontestável. Porém, o Grêmio jogou muito mal o jogo decisivo contra o Caxias. O bravo time da Serra, comandado pelo competente Rafael Lacerda, quase conseguiu reverter uma confortável vantagem que a equipe de Renato impôs no jogo de ida. Futebol é assim. Fui o comentarista do jogo. E, quando Anderson Daronco apitou o final da partida, um dilema quase filosófico tomou conta deste que vos escreve. Afinal, o que fica: a festa que minimiza os erros ou o apontamento de questões evidentes que apareceram no jogo final?

É interessante como o jornalismo esportivo gaúcho produziu alguns dogmas que pertencem somente a ele. É como se fosse uma tradição; e tudo reside nesta tradição. É como um guia de bons procedimentos que deve ser seguido à risca, sob pena desta mesma tradição ser vilipendiada, usurpada, deformada. A constituição de uma espécie de filosofia do radiojornalismo esportivo gaúcho – isso é assunto para um texto muito maior, um ensaio daqueles que gosto de fazer, ou, até mesmo, um artigo científico – vem dos anos 1970, quando se consolidou efetivamente um “estilo gaúcho de transmitir”. É uma base teórica informal, sedimentada nos seguintes princípios: hierarquia, imparcialidade (sic) e valorização das “nossas coisas”. É correto afirmar que o crescimento do futebol gaúcho impulsionou a nossa imprensa. É desonesto desconectar os feitos de Grêmio e Internacional com as práticas das emissoras e dos jornalistas. Uma coisa puxa a outra. O sociólogo Roberto DaMatta diz que o futebol é uma “coisa social”, intrínseca à sociedade. Não é um ópio do povo, que é uma expressão derivada a partir de uma perspectiva marxista, levada em consideração por intelectuais pertencentes a esta corrente, devidamente desmentida por outros autores que rechaçam essa separação entre futebol e sociedade. Futebol é parte social. Logo, a imprensa, uma instituição social, liga-se diretamente ao que é o esporte. Precisaria, repito, de mais texto para aprontar melhor essa ideia, algo que não cabe aqui – nem é minha intenção.

Um dos paradigmas estabelecidos por esta filosofia do rádio esportivo gaúcho estabelece que sempre quando houver um campeão, que se valorize a festa. Minha carreira foi toda delineada através destas diretrizes. Por causa deste aprendizado, surgiu esse dilema quando comentava o jogo. Eu deveria esquecer a paupérrima atuação do Grêmio e me juntar aos torcedores mais festivos, comprando esse discurso de “ganhou, é festa!”? Tenho, para mim, que cada vez mais o jornalismo assume um papel autoral e verossímil, em que o comentarista tem, por obrigação, dizer aquilo que sente, que pensa e que é analítico, distanciado e condizente ao fato e não ao efeito. O resultado, ou efeito, é conhecido: Grêmio campeão. Mas de que forma? Qual o fato? Grêmio jogou mal. O impasse conceitual entre a tradição – fosse a mesma coisa nos anos 1970, 1980 ou até 1990, a abordagem seria outra qualquer – e o que os adeptos desta tradição chamam de “modernidade” é bem marcante para um sujeito que aprendeu a fazer um rádio tradicional, mas que acredita que, como qualquer coisa no mundo, os fenômenos podem e devem ser alterados. O rádio de 1970 torce o nariz, mas aceito aquilo que os conservadores têm a dizer: era muito melhor antes.

Como eu não vivo um campeonato mundial de “linha da história”, decidi ser honesto comigo: eu critiquei o Grêmio pela atuação, valorizei o Grêmio pela conquista. Porque acho que é assim que, numa era super informada, acessível e onde os fatos estão à mostra do público, tem que ser. E aí, entra-se naquilo que baseia, não como dogma, mas como espírito: o rádio esportivo gaúcho se baseia mais em mitologia que em prática. O que forjou toda uma geração seguinte foi um imaginário criado pela magia – que é diferente de imagem – das transmissões setentistas. Nossos olhos não eram os nossos, mas os dos jornalistas, que descreviam as coisas que não víamos. E que alimentavam essa mitologia através de simbologias que o tempo permitia. Se, antes, era proibido “criticar na festa”, por que não posso fazê-lo em 2020, só porque alguém disse que isso não era legal? São as minhas lentes, mais de quarenta anos depois, que servem como um filtro para que eu diga aquilo que eu vi, como um intérprete do fato, não um propagador do mito falsamente perpétuo.

É mais ou menos o mesmo sentimento que tenho quando um analista enxerga o jogo mais através de anseios gerados por esse imaginário do que interpretá-lo através de uma realidade do cotidiano, temporal: “Que saudade dos pontas; faz falta um Caçapava ali; ganha, mas tem que dar espetáculo; futebol sempre foi simples, querem inventar…”. Mais uma vez, imaginário. Mitificação. Enxergar o jogo com o olhar da época em que o futebol nos encantou é pior que saudosismo; é deslocamento de realidade. A realidade é uma representação do tempo-espaço de momento e não de desejos por reproduções do passado. Não considero o passado desimportante, pelo contrário. Ele funciona como uma base. Porém, também não sou um tradicionalista ferrenho para não reconhecer que ele pode, quando não em forma ou conteúdo, mas em estética e sentido, ser modificado, adaptado, transformado. Não diria também ultrapassado ou superado. Creio que este seria o maior tributo que presto aos homens da nossa linda história que formataram este modelo.

O comentarista contemporâneo – é o título do meu livro, mas hoje eu trocaria isso por outra expressão – é um ser isolado. Nele, falta o espírito que sobra no torcedor. Ele precisa ser distanciado, desapaixonado, chato, ausente de alma, solitário quase que num ressentimento por não sentir essa devoção incondicional que se tem a um clube de futebol. Ele faz isso por proteção, mas também por fidelidade a um novo princípio, que é a nossa sobrevivência. A gente precisa sair da chuva, do carnaval e da cerveja, afligir-se no vazio dessa solidão, desvincular-se da beleza da glória, para colocar, num primeiro plano, aquilo que, por muitas vezes, o torpor da paixão faz por esconder. Não à toa, somos os arrogantes do pedaço, inimigos do torcedor, reféns de novos dogmas que, desta vez, não foram criados pelos nossos mitológicos ancestrais da latinha. Arriscamos nosso lugar na história, porque os mitos são eternos. Mas dormimos com a sensação de dever cumprido, na contramão daquilo que os puristas definiram como regra. Sozinhos e aflitos, como tem que ser.

Autor

Carlos Guimarães

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