Na rarefeita literatura infanto-juvenil brasileira, o surgimento de novos talentos tem de ser saudado com especial entusiasmo. Em seu livro de estréia, Foi! Não foi! Foi (alusão a um poema de Manuel Bandeira), Luzia Lacerda transita com desenvoltura pelo universo da imaginação infantil, das desigualdades sociais e da infinita capacidade humana de sonhar. Trata-se, sobretudo, de uma elegia à amizade, “o mais precioso, mágico e transformador dos sentimentos”, em sua própria definição. O único capaz de operar prodígios e entender a súplica das estrelas.

Foi! Não foi! Foi! conta a história do relacionamento de uma garota de classe média alta e um menino de rua, ou menino na rua, diferença fundamental na visão de Luzia, ela própria uma militante de projetos sociais como o Travessia. “Crianças saem de certas casas porque a vida nas calçadas, apesar de tudo, é muito melhor que em lares inexistentes”, define a autora. No livro, Júlia encontra Deusinho, ou é ele que a encontra, porque em amizade de verdade verdadeira é assim mesmo, uma atração mútua, interessada apenas na companhia e no bem-estar um do outro.
tPara conhecer o mundo dele, tão distante do dela, Júlia o acompanha em uma fascinante viagem que começa com a entrada no ralo da pia e termina na observação do centro de São Paulo a partir das bocas-de-lobo. A obra é repleta de significados, alguns ocultos, outros explícitos, mas todos disponíveis para quem habituou-se a enxergar mesmo aquilo que por vezes não se quer ver. Belo trabalho de estréia desta bela morena do interior, paulistana por adoção, cuja personalidade é tão rica e multifacetada quanto seus projetos artísticos. Fotógrafa por ofício, atriz por prazer, agora escritora por obrigação, Luzia já não surpreende tantos quantos a conhecem e admiram sua personalidade invulgar, seu carisma e sua sensibilidade.
Para mim, em particular, não foi surpresa. No final de 2002 eu havia tido o privilégio de um primeiro contato com este livro, em sua forma artesanal, com fotos de verdade, e-mails impressos, bilhetes de próprio punho com a cor afetiva de uma caneta Bic, recortes, colagens e páginas coloridas. Encantara-me na ocasião. A versão impressa teve de abrir mão das fotos de verdade e dos bilhetes com Bic, mas preservou a essência, com páginas em cores diversas, manuscritos, ilustrações, fotos tratadas em computador, num trabalho dela e do fotógrafo Danilo Tanaka, em edição caprichada da Record.
Embora trafegue pelos labirintos dos problemas sociais, o livro é leve, bem-humorado, de bem com a vida. Luzia o dedica a Dom Quixote, Groucho Marx e Federico Fellini, que a ensinaram a sonhar. Ensinaram bem.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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