Toda unanimidade é burra? Deve ser, mas, confesso, jamais vi unanimidade em torno de qualquer coisa ou de alguém. Até para a lei da gravidade eu vi alguns físicos torcendo o nariz. Evidente que não entendi patavina, fora a torção nasal. Vi apenas muitas opiniões semelhantes, contra ou a favor, tipo Chico é um grande letrista, não dá pra aguentar a chatice dos romances do Chico.
É preciso também falar das discordâncias. Muitas, mesmo que sejam contra o gosto vulgar de uma maioria desmiolada, não ficam de pé sozinhas: são burras, confusas, apenas irritadas. Os homens são tão variados, que a própria inteligência e a própria burrice se manifestam dos modos mais inesperados nas mesmas pessoas. Ou não é famoso o gênio do xadrez que é um pateta chapado?
Ou peguemos o Nelson Rodrigues mesmo como exemplo. Todos conhecem aquela frase dele que diz que nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais. Como frase, é perfeita. Precisa grande tino literário pra arrematá-la, não? Mas é uma monstruosidade tão flagrante que é encarada apenas como piada. Mais: qualquer Arnaldo Jabor vai dizer que o Nelson estava só provocando, que é evidente que ele não acreditava nisso, que se saiba nunca deu um tapa numa mulher. Tudo bem. Mas uma parte do Nelson, bem no fundo do Nelson, abaixo da linha da água, acreditava ou queria acreditar. Não é por nada que alguém acredita que o amor verdadeiro é aquele em que os amantes morrem em seguida, pra escapar do relativismo brutal da vida.
Nelson foi um dos maiores humoristas que tivemos, um craque nos diálogos, com um faro artístico que torna as peças do Millôr Fernandes, por exemplo, meras elucubrações de um adolescente inteligente. Mas era assombrado pelos fantasmas mais belle époque que se possa imaginar. Uma espécie de freirinha ardendo de tesão, à espera de que apareçam as chagas nas palmas das mãos depois de cada masturbação. Talvez Nelson, ao lado de Clarice Lispector, seja a sensibilidade mais exacerbada da literatura brasileira. Uma pena. Nesse sentido Machado de Assis ainda continua sendo um dos poucos escritores adultos que temos.
Falando em unanimidade
Vamos falar de Jennifer Egan, a escritora americana queridinha da imprensa, ou melhor, vamos falar de O torreão, considerado um romance inteligente, excepcional e deslumbrante. O Fraga e eu compramos o livro em sociedade. Não acreditamos nos críticos americanos, não somos tão bobos assim. Mas acreditamos num amigo.
Nem o Fraga nem eu achamos O torreão inteligente. O enredo é uma colagem bastante enjambrada de vários gêneros. Tem trechos que parecem filmes de tevê, como o amor da professora pelo presidiário.
Nem excepcional. Os personagens até são interessantes, mas depois de apresentá-los Egan não sabe o que fazer com eles, fica enchendo linguiça e, pior, não faz com que se relacionem uns com os outros, fora em um ou outro momento fugaz. Sem isso não pode haver romance. Isso é um romance. Há uns instantâneos, apenas.
Nem empolgante. O texto é de uma mesmice assombrosa, incolor, arrastado, contando uma história que desperta um interesse dos mais vagos. Tédio na certa. Exceção? O presidiário que ouve os mortos num rádio feito com uma caixa de papelão. Mas a cena não tem desdobramentos, como o resto.
Terminado o romance de dona Jennifer Egan — bem bonita e simpática, por sinal —, fico pensando: se eu fosse americano também poderia ser tratado como gênio? Agora começo a entender por que tanta gente se manda pra lá.
Eleição
Sérgio Fantini me pergunta, lá de Belo Horizonte, como foi a eleição por aqui. Prefiro não responder. Vá que eu me empolgue? Na certa serei processado por injúria e difamação. Político é bicho gozado. Quanto mais sem-vergonha, mais melindroso.

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