Parece que a saída é essa: o YouTube. A cada semana, um jornalista, mesmo dentro da chamada grande mídia – que vou chamar assim só para o leitor entender, porque esse termo já não é tão correto assim -, lança um canal na plataforma. É a nova bolha, o novo hype, a paleta mexicana dos tempos atuais. Por que acontece esse fenômeno? A “grande mídia” – é de propósito, relaxem – está dando lugar a uma nova mídia, mais artesanal, autoral, aquela coisa do do it yourself, em que pessoas são mais importantes que veículos?
Uma postagem do meu amigo Nando Gross e diversos debates paralelos nas redes sociais sobre esse assunto me motivaram a escrever novamente sobre esse tema que, ao fim e ao cabo, parece interminável. Nada de anormal. Trata-se do bom e velho debate entre a tradição e o progresso. As raízes e a inovação. O antigo e o moderno. O velho e o novo. Afinal de contas, quem está certo? A grande mídia realmente está morrendo? O YouTube se assume como a principal plataforma dos tempos atuais, substituindo a televisão como um efetivo meio de comunicação de massa, aquele efetivo da indústria cultural que rege padrões, dita comportamentos, engaja, produz modas e transforma sociedade, como fez a televisão?
A tradição é importante e já formatou, em prática e imaginário, uma cultura que é difícil de destruir. Minha geração foi forjada pela televisão aberta, na moda, na música, nas roupas e nas rotinas. Uma geração anterior teve a mesma formação através do rádio. Ambos ultrapassaram os anos, sofrendo adaptações, consequências das alterações ocorridas nos outros meios, transformações tecnológicas, impactos sociais e os impactos do comportamento da audiência. A TV e o rádio estão aí. Mas parece que a sedução do YouTube tem tirado público e profissionais destes dois meios.
Nesse conflito geracional, o correto é entender tudo como uma coisa só. Ora, a imprensa escrita não deixou de existir com a chegada do rádio. Os radialistas não sumiram com a chegada da televisão. Os telejornalistas não desapareceram com a chegada da Internet. Não será o YouTube a matar todos eles. A diferença é muito menos estética que parece. E bem menos tecnológica. O frenesi da inovação pela inovação não faz parte da leitura mais apropriada que esse evento merece. A grande diferença se dá pelo modelo de negócio.
Longe da comunicação, o – péssimo termo – empreendedorismo parece ser uma “alavanca para o futuro”. É tentador. Seja seu próprio dono, não tenha chefe, preste satisfação a si mesmo e a mais ninguém. Também seduz o fato de poder fazer isso fazendo a revolução deitado em sua cama, despenteado. A estética é tão forte que até o Guga Chacra aboliu o pente.
É, portanto, um caminho sem volta. Se ele vem sendo feito de forma correta, é uma outra discussão. Tratar o YouTube como um pote de ouro no fim do arco-íris só vai produzir uma corrida de fracassados para o tão sonhado destino. Tratar o YouTube como uma concorrência desqualificada dos meios tradicionais também só vai deixar os tradicionais anacrônicos e sem público. Nesse conflito entre o deslumbrado e o inseguro, eu fico com um pé atrás nos dois. Como sou bípede, mantenho o outro na frente, por via das dúvidas. Até o dia em que eu souber mais onde pisar com os dois de forma segura.

