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A última traição a Philip Marlowe

Philip Marlowe foi traído muitas vezes. Foi traído por clientes, mas um detetive está pronto para isso. Foi traído por um amigo, Terry Lennox, …

Philip Marlowe foi traído muitas vezes. Foi traído por clientes, mas um detetive está pronto para isso. Foi traído por um amigo, Terry Lennox, coisa que acontece todo dia, mas para isso ninguém está pronto. Foi traído no cinema por Humphrey Bogart e Elliot Gould, sem falar em Robert Mitchun e vários outros. Foi traído na literatura por Robert B. Parker — ou não, Parker apenas prolongou a traição de Raymond Chandler, o criador de Marlowe.

As traições cinematográficas são rotineiras, sabe-se. Marlowe não pensava em sexo o tempo todo como o Bogart de À Beira do Abismo (The Big Sleep), de Howard Hawks. Bogart até se apaixona pela irmã da assassina — claro, naqueles dias todos se apaixonavam por Lauren Bacall. A luta de Marlowe contra o desejo, que há no livro, se perde. Contra o desejo, não contra o amor, bem entendido: a irmã da assassina parece uma mulher fácil demais para causar paixão. Essa luta pode ser meio idiota, mas é reveladora. Marlowe resiste à assassina e à irmã dela para não se sentir comprado, porque no final ele deixa as duas escaparem da polícia. No filme, a moral dá um jeitinho: a assassina é morta num tiroteio. Bogart fica livre para o amor. Uma solução barata, como se vê. No livro, Marlowe se apaixona pela mulher do bandido, uma tal Peruca Prateada. Amor instantâneo, fulminante — e falido desde o primeiro segundo. Marlowe só tem ligações ocasionais ou paixões não correspondidas.

Há várias outras traições cinematográficas, em níveis variados. Os filmes de Robert Mitchun, por exemplo, tentaram ser fiéis a Marlowe. Mas são ruins, são ruins de doer. O mais piedoso — para Chandler, para Mitchun — é a gente esquecer deles.

Com Elliot Gould, Marlowe é transportado para os anos sessenta, setenta, não lembro bem. Virou um boca mole, falando sozinho, cuidando de um gato. É o clima da época, não o clima de Chandler. O filme é O Longo Adeus, de Altman.

No livro, traído por Terry Lennox, Marlowe sofre e faz os comentários irônicos de sempre. No filme, vai à forra: explode Lennox com uma espingarda de dois canos. A reação no livro me parece mais real. A gente não anda matando cada um que nos passa a perna.

Marlowe e Lennox eram amigos, quer dizer, tomaram uns tragos juntos, mais nada. Havia qualquer coisa como amizade, mas, convenhamos, não tinha sido um investimento tão grande assim. Não era uma amizade de infância ou adolescência, época, segundo dizem, em que as amizades se fazem pra valer. Marlowe e Lennox eram bons conhecidos, se achavam simpáticos. A traição, assim, não me parece tão grave. Afinal Marlowe é detetive, lida com trapaceiros o dia todo, sabe o que esperar das pessoas. Certo, ele foi preso, humilhado e tudo o mais, mas aguentou calado menos por amizade a Lennox do que por orgulho e para manter limpa sua barra profissional. Se Marlowe fosse do tipo furioso como Sam Spade, podia se admitir o tiro em Lennox, se bem que Spade talvez seja muito mais calculista do que furioso, às vezes até liga pro advogado pra saber até onde pode forçar a lei. Mas Marlowe é um cavalheiro, digamos, com perdão da má palavra.

É justamente em O Longo Adeus que Marlowe conhece Linda Loring. Como sempre, é um caso frustrado de saída. Eles têm uma noite e ela se manda para a Europa. Marlowe acha que se ela ficar, num mês não terá mais interesse nele. Nem lhe ocorre dar a chance de um mês a Linda, ou a si mesmo.

Isso talvez seja estranho. Porque ele acusou o golpe da amizade perdida de Lennox. É um homem precisando de afeto. Nessas alturas, algum novato na psicologia diria que Marlowe é uma bicha enrustida: afinal, por que uma vida que é uma sequência de ligações ocasionais e paixões não correspondidas? Mais: quando resolve botar o afeto em alguma coisa, escolhe Lennox, um homem.

Talvez não seja tão simples. O amor é muito mais perigoso do que a amizade. Tem mais exigências também. Pode ser que ao evitar Linda Loring, Marlowe simplesmente estivesse se protegendo da dor futura de perdê-la, o que soa meio idiota, mas — puxa — como acontece. Esse homem, capaz de se deixar escalpelar por um código pessoal de honra, é um covarde na vida íntima. Claro, é mais fácil trocar murros e tiros do que lidar com nossas emoções.

Marlowe sai arrasado d’O Longo Adeus. O próximo livro, Playback, dá outra volta no parafuso. Suas tentativas de ajudar as pessoas dão em nada. Na verdade só atrapalham. Um gângster é muito mais eficiente. Inclusive fica com a mulher que ele poderia amar. Pior: Marlowe trabalhou para o vilão da história. Resumindo: volta para casa na última lona, como se dizia. Está só, está cansado. É um fracasso.

E de quem é a culpa? Ele se condenou a uma vida auto-suficiente e só agora, parece, se dá conta de que caiu numa armadilha. Tem poucas opções. Ou se entrega à bebida, como o próprio Chandler. Ou trata de lavar um tiro no próximo caso. Ou enlouquece. Ou? Ou muda de vida. Mudar de vida é a opção mais dolorosa, porque enfim Marlowe terá de pensar por que ele é como é.

Na última página de Playback, o alívio. O telefone toca. Linda Loring diz que foi fiel, que voltará. Dessa vez Marlowe topa. Quando ia quebrar, resolveu se dar uma chance.

O próximo passo é Poodle Springs Story, lançado aqui pela L&PM como Amor e Morte em Poodle Springs. Chandler, ao morrer, em 1959, deixou quatro capítulos prontos. Trinta anos depois, Robert Parker foi até o — amargo, naturalmente — fim.

Poodle Springs começa com o casal Marlowe de volta da lua-de-mel. Linda alugou uma casa com piscina. Diz que espera que ele goste. A cama é do tamanho de uma cancha de tênis. Marlowe acha ótimo: se não se derem bem, podem se manter longe um do outro. Assim segue. Eles chegam e começam a se separar. Marlowe quer ganhar a vida — da única maneira que sabe, sendo detetive —, não engordar à beira da piscina, à custa da grana da mulher. Não sei se essa virtude toda não é simplesmente uma desculpa para fugir de novo de um relacionamento a sério. No fim, coisa de Parker, não de Chandler, mas que bem poderia ser de Chandler, o casal chega a um arreglo: em vez de marido e mulher, serão amantes, como no começo.

Isso tudo me parece idiota. Chandler, nos quatro capítulos que escreveu, dá mostras de sobra de que não sabia o que fazer com Marlowe casado. Os comentários graciosos parecem paródias dos comentários do Marlowe dos bons tempos. As reações, reflexos condicionados. Vemos o detetive como um cachorro andando em roda, atrás do próprio rabo. O detetive, ou Chandler?

Chandler estava morrendo. Saía uísque pelas orelhas dele. Não tinha mais fôlego para nada. Era tarde. Tarde para escrever esse livro, para ir ao fundo de Marlowe, para fazer Marlowe ver sua cara verdadeira e daí para a frente levar uma vida de gente, ou ao menos tentar levar uma vida de gente. Era tarde porque o próprio Chandler, ao invés de enfrentar a si mesmo, seu desespero, o porquê desse desespero, preferiu encher a cara até morrer. Incapaz de ver saída para si mesmo, foi cego com Marlowe, arrastou Marlowe para o inferno com sua angústia.

Há escritores que purgam seus pecados, que exorcizam seus demônios através dos seus personagens. Os personagens são condenados à destruição, ao assassinato, à loucura, suicídio, incesto, mas seus criadores saem do outro lado do livro se não para a liberdade, ao menos para a liberdade possível, para a salvação possível, para o aprendizado da felicidade. Chandler fracassou. Não pôde ou não teve tempo para o mergulho final, que aniquilaria Marlowe e salvaria ele, Chandler, ou salvaria os dois.

O final de Playback é a amostra de que Chandler quis salvar Marlowe. Podia ter parado por aí. Mas insistiu. Poodle Springs é a prova de que a decisão de salvar Marlowe não era séria, ou melhor, não foi ditada por razões profundas, por ânsia de exorcismo. É provável que nessas alturas ele se sentisse confundido com o personagem, que ao dar uma chance de fuga da solidão a Marlowe, estivesse sonhando acordado. Poodle Springs talvez não seja a saída do sonho para a realidade, mas a punição por ter sonhado.

Certo, no final de Playback, Linda Loring pega Marlowe de guarda baixa, mas não tão baixa a ponto de aceitar qualquer mulher. Tanto que há poucos dias ele deixa a secretária do advogado que o contratou ir embora sem dor, sem saudade. Mais: Linda, pelo que sabemos dela em O Longo Adeus, é uma pessoa especial — e apenas uma mulher especial seria capaz de penetrar aquela couraça de orgulho, solidão e amargura que é Marlowe. Seguindo a lógica: se Marlowe topa essa mulher, é porque está interessado em que ela penetre a couraça, o que quer dizer mudança na vida dele, confere? Uma mulher especial não entra na vida da gente para aceitar tudo passivamente. Se aceita, se não mexe em nada, não é especial. Um homem se mete com uma mulher e uma mulher se mete com um homem para fazerem o que não se pode fazer sozinho, como um filho, por exemplo. Duas pessoas precisam, no mínimo, ajustar suas manias. Linda Loring não parece do tipo que aceitaria na maior um atrofiado emocional como Marlowe. Com ela, ele ia virar gente, ou ao menos tentar.

Mas o que acontece em Poodle Springs? Vemos uma Linda absolutamente fútil, uma menina rica que não arrumou um marido que ama, mas um gato de raça, ou algum outro bicho, que precisa mimar. Era a saída mais fácil para os autores. Uma sequência de clichês e pronto, temos o detetive novamente nas ruas, à espera de novas e eletrizantes aventuras. O último livro de Marlowe não devia ser policial, ou só policial. Tinha de ser de amor, ou de análise psicológica, antes de mais nada.

Essa piada, Marlowe e Linda começarem casados para se divorciar e ser amantes, é uma bobagem. A coisa teria acontecido exatamente ao contrário. Fujão como sempre, Marlowe não ia se casar assim no mole. Espernearia o quanto pudesse. Linda teria de vencer resistência por resistência. Aí, acho, estava o verdadeiro romance, o nervo exposto. Porque o relacionamento dos dois deveria iluminar a questão óbvia: por que Marlowe é um derrotista na vida íntima? Ele é um vazio: não tem amigos, não tem família, não tem passado, bebe sozinho, joga xadrez consigo mesmo. Está fora da corrente do mundo. Só entra no mundo para resolver os problemas dos outros, depois volta rapidinho para o seu canto.

Não interessa se o amor de Marlowe e Linda daria certo. Interessa que o sucesso ou fracasso fosse bem contado. Que surgissem as razões de Marlowe. Que, além do detetive, tivéssemos o homem. Mas Marlowe, o homem, como já disse, estava acima das forças de Chandler. De Parker nem se fala. Continuamos então com mais um herói na praça.

Autor

Ernani Ssó

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