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A vegetariana mais sexy

Sempre atrasado, fico sabendo que a atriz Olivia Wilde foi escolhida a vegetariana mais sexy, em 2010. Taí uma boa ideia. Devia ser expandida, …

Sempre atrasado, fico sabendo que a atriz Olivia Wilde foi escolhida a vegetariana mais sexy, em 2010. Taí uma boa ideia. Devia ser expandida, desde a escolha de categorias óbvias, tipo a vesga ou a daltônica mais sexy, a adúltera ou a criminosa mais sexy, a outras mais sutis como a espírita mais sexy ou a pré-socrática mais sexy. De qualquer forma, Marilyn Monroe continuaria a finada mais sexy. Melhor não mexer nisso. Melhor criar o troféu Marilyn Monroe pra distribuir pra boazudas mortas recentemente.

Por falar em atraso

Comecei a ler “Pornopopéia”, o romance do Reinaldo Moraes. É louco, hilariante, desbocado — desbocado no sentido dos palavrões e de um português anárquico, capaz de fazer o Evanildo Bechara se remexer no fardão. É excessivo? Sim, mas prefiro todos os excessos a elegâncias tipo nem cheira nem fede de um Bernardo Carvalho, por exemplo.

The closer

Elogiei muito a série criada por James Duff pra uma pessoa: personagens complexos levemente caricaturados e histórias ótimas — com drama e humor na medida, com diálogos exatos e naturais, tudo no ritmo perfeito — vividas por atores de primeira, começando pela sensacional Kyra Sedgwick. A pessoa não gostou. Não fiquei surpreso. Se todo mundo tivesse um gosto semelhante ao meu, os políticos corruptos estariam presos e o chuchu não se salvaria nem como suflê, por exemplo. Mas uma coisa sempre me surpreende, mesmo que não devesse: como tanta gente é incapaz de explicar com clareza e argumentos razoáveis por que gosta ou não gosta de alguma coisa. Acho que gosto se discute, sim, já que ele tem a ver com nossa cultura, nossos interesses e nossas limitações emocionais e intelectuais. Quer dizer, é bom discutir, não pra convencer ninguém de nada, mas pra termos uma noção de com quem estamos lidando.

A mulher através dos tempos

Às voltas com Dom Quixote, acho graça na quantidade de desmaios, alguns fingidos, claro. Duas e três tem uma mulher caindo dura no chão. Cervantes sempre descreve do mesmo jeito: a fulaninha teria se estatelado no assoalho se alguém, providencialmente perto e providencialmente com bons reflexos, não a segurasse nos braços. Minha nossa, que diferença das mulheres de hoje, digo, das mulheres do cinema: são todas ninja, lindas e assassinas implacáveis. No tempo do Cervantes, devido a algum problema sentimental, as mulheres se vestiam de pastoras e iam cuidar das cabras nas montanhas. Agora, botam roupas justas de couro preto e sapato de salto agulha e vão matar por dinheiro, enquanto aguardam a vingança. Sinto que há algo profundamente errado, tanto com as pastoras como com as assassinas. Quer dizer, errado com a imaginação masculina.

Coincidências

Certo, no tempo do Cervantes não era considerado um truque baixo, mas mesmo assim me parece que ele abusa das coincidências no final do primeiro volume do Quixote, quando reúne aquele bando lacrimoso de casais na estalagem. Eu vi as coincidências mais delirantes, até em minha própria vida, mas em literatura eu não aguento, a menos que seja contra. Gostaria de ver mais escritores lidando com o acaso sem fraquezas de tias velhas. Um bom recuerdo: o final de “Pais e filhos”, do Turgueniev. Mas aí, meu nego, é preciso astúcia e cabelo no peito, como se dizia também no tempo do Cervantes.

Prêmios e irreverência

“Pornopopéia” não deve ter concorrido ao Jabuti. A irreverência quase nunca é premiada. Teriam de começar trocando o jabuti por um cágado.

Autor

Ernani Ssó

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