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A vingança dos críticos

Não tenho certeza, mas só podem ter sido os ingleses, que têm mania de pesquisas. É o seguinte: muitos escritores reclamam das resenhas desfavoráveis, …

Não tenho certeza, mas só podem ter sido os ingleses, que têm mania de pesquisas. É o seguinte: muitos escritores reclamam das resenhas desfavoráveis, dizendo que foram vítimas de vinganças malignas. Segundo a pesquisa, isso raramente é verdade. Pode ser. Eu não lembro de ter visto nenhuma vingança, não muito explícita, mas incompetência e prepotência sim, quase todo dia.

Henry James

Dizem que James é um grande escritor, mas eu nunca consegui me acertar com ele. Isso não me surpreende — não me acerto com vários outros grandes escritores. Provavelmente a culpa é minha, mesmo que eu costume espernear. Ou nem se pode falar em culpa e sim em visões e sentimentos distantes ou conflituosos.

James é muito inteligente. Azar o meu se pouca coisa nessa inteligência me emociona.

Agora, eu sempre quero saber por que gosto e por que não gosto, até mesmo por que fico indiferente, que é mais o caso com James. Numa espécie de tira-teima, li “Pelos olhos de Maisie”, nessa edição mais que caprichada da Penguin-Companhia das Letras. Se eu gostasse, pensei, iria reler o homem e talvez o visse pelos olhos certos. Do que conheço — pouco, confesso, só três romances — me pareceu o melhor, ou mais, me peguei me divertindo em muitos trechos. Mas a sensação de que faltava alguma coisa pro prazer ser completo continuava forte.

Aí, lá pelas tantas, topei com a seguinte frase que explicava a sensação de Maisie ser uma espectadora: “Isso dava-lhe com frequência um ar curioso de estar isolada de sua própria história, como se só pudesse atingir a experiência comprimindo o nariz contra uma vidraça”. Quase fechei o livro nessa página, a 127.

Era isso o que eu sentia: James me contava o que via através de uma vidraça. Assim os personagens nunca estão muito perto e, mesmo sendo nítidos, são meio fantasmagóricos, sem cheiro, sem tato.  Em todo o romance, apenas uma cena me parece ter escapado dessa maldição: a ida de Maisie com o pai à casa da condessa. É de uma comicidade tão feroz que senti que James tinha aberto a vidraça e se metido no meio dos personagens.

Como disse, é óbvia a grande inteligência de James, mas sinto seus livros apenas como um exercício dessa inteligência, meio como se ela estivesse mais interessada em si mesma do que no mundo, como um gênio criando problemas de xadrez ou algo assim. Inevitavelmente penso em Borges. Borges também era muito inteligente e também parecia estar a alguns passos da dita realidade. Mas nunca sinto em Borges o vazio. Ele pode estar longe de tudo, mas está pertinho da literatura, sempre uma coisa muito viva para ele e que se transmite a nós, leitores dele. Mais: ele nunca está longe da própria emoção. É comedido sempre e vive dando voltas para disfarçá-la. Isso, ao contrário do que pensam os piegas e derramados, é muito mais eficaz.

Freira

Esses dias vi uma freira mascando chiclete. O abandono do latim nas missas, as tramoias do banco do Vaticano e os abusos na sacristia tinham me chocado, mas isso? Francamente, se eu fosse católico devolvia a carteirinha.

Amizade colorida

Alguém lembra da expressão? Queria dizer amizade que também passava pela cama. Pelo que me lembro era o modo mais rápido de se chegar ao preto e branco.

Cansaço

Meu problema principal, hoje em dia, é que cansei de ser pobre e não entendo como levei tanto tempo, nem sei como remediar a coisa.

Autor

Ernani Ssó

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