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Aconteceu em São Borja

Por Marino Boeira

Num passado não tão remoto assim, eu fazia com o Roberto Pintaúde um programa sobre propaganda e marketing numa rádio web. Por incrível que pareça, o programa tinha alguns ouvintes cativos no Estado, inclusive em São Borja.

Uma professora de comunicação de uma universidade local foi mais além: nos convidou para uma palestra para seus alunos.

Como eu tinha grande curiosidade em conhecer São Borja, convenci o Pintaúde a aceitar a convite e lá fomos numa madrugada, de ônibus leito, rumo a São Borja.

Chegamos lá de manhã e fomos tratados a pão-de-ló pelos professores e alunos do curso de Propaganda.

Almoçamos com eles, visitamos os pontos turísticos da cidade; o excelente museu sobre Getúlio Vargas, o do João Goulart, o cemitério onde estão os túmulos de Jango e Brizola; o mausoléu de Getúlio na praça central, visitamos o campus da universidade e fomos entrevistados na rádio local.

À noite fizemos uma palestra para os estudantes.

Eles foram tão simpáticos e acolhedores, que resolvi não perguntar o que esperavam da vida, gastando quatro anos para fazer um curso de propaganda que pouca utilidade teria no futuro, como tinha planejado e junto com o Pintaúde, falei banalidades sobre a profissão.

Às 11h da noite, tomamos o ônibus de volta para a Capital. Ele estava quase vazio e sentamos nas primeiras poltronas.

O Pintaúde, que passara o dia se queixando de dores e se automedicando, menos de uma hora de viagem disse que precisava ir ao banheiro do ônibus.

Foi e não voltou.

Eu devo ter cochilado e acordei com a sensação de que algo ruim tinha acontecido com ele. Possivelmente devo ter sonhado, mas fiquei com a certeza de que ele tinha morrido sentado no banheiro.

E o que faço agora? Peço para parar o ônibus e ver o que aconteceu com o Pintaúde. E se ele tivesse morrido mesmo? O ônibus iria parar na primeira cidade, possivelmente Soledade, onde nos avisaram que haveria troca de motorista. Seria preciso chamar socorro médico, mesmo que fosse tarde pra isso. Viria a polícia, claro. Só muito depois o ônibus poderia seguir adiante, mas alguém teria que ficar na cidade para acompanhar os procedimentos médicos e policiais. E esse alguém só poderia ser eu. Eu teria que ficar em Soledade, mais uns dois ou três dias, certamente gastando dinheiro do meu bolso para pagar refeições e o hotel, dinheiro que ninguém me reembolsaria. Foi nessa hora que um sentimento profundamente egoísta tomou conta de mim: se o cara já está morto, o que vai adiantar chamar o motorista e interromper a viagem em Soledade.

Melhor esperar chegar a Porto Alegre. Aí eu ligo para a mulher dele, a família dele, que vão tomar as providências legais e eu posso voltar pra minha casa.

Felizmente, esse sentimento durou pouco e logo me dei conta que estávamos viajando juntos e de certa maneira, eu tinha uma responsabilidade com ele. Resolvi não esperar a troca de motorista em Soledade e fui ver o que estava acontecendo.

O Pintaúde estava sentado num dos últimos assentos, quase em frente ao banheiro.

– Eu não paro de entrar e sair do banheiro. Então vou ficar aqui pra poupar trabalho.

 

Autor

Marino Boeira

Formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e na Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos). É autor dos livros ‘Raul’, ‘Crime na Madrugada’, ‘De Quatro’, ‘Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda’, ‘Tudo Começou em 1964’, ‘Brizola e Eu’ e ‘Aconteceu em…’, que traz crônicas de viagens, publicadas originalmente em Coletiva.net. E-mail para contato: [email protected]
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