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Acreditar é uma coisa, confiar é outra

Por Elis Radmann

No dicionário, acreditar é sinônimo de confiar. Na vida real, as pessoas separam estes dois conceitos, há uma diferenciação simbólica que ocorre nas decisões do dia a dia.

Acreditar é crer, tem relação com a percepção que temos sobre algo, tem a ver com uma imagem idealizada. Quando o senso comum diz que “está dando um voto de confiança”, está dizendo que acredita na possibilidade, tem relação com uma expectativa futura.

Confiar, redundantemente, é depositar uma confiança em algo ou alguém, existe uma relação mais objetiva de “entrega”, pressupõe uma ação. A confiança tem uma relação com a experiência vivida e, por conseguinte, está associada ao passado e ao presente.

Esta diferenciação foi aprofundada em grupos focais realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião. O grupo focal é uma técnica de pesquisa qualitativa onde se reúne pessoas, com um perfil pré-determinado, para debater um tema, no caso, os motivadores da decisão humana.

No campo do varejo, um consumidor pode acreditar que uma roupa de marca tem qualidade, reconhece que a grife é famosa e pode até concordar que a peça tem um design interessante. Mas confiar na marca vai depender de outros fatores relacionados ao custo X benefício, associados aos fatores de decisão da confiança, como por exemplo, a durabilidade da roupa e o conforto por ela proporcionado. 

Se olharmos para o marketing, o acreditar tem uma relação com um conceito estabelecido, uma resposta à identidade que é vendida pelas estratégias mercadológicas, está associada à lembrança de marca. A confiança é relativa ao relacionamento com a marca, a preferência estabelecida que fomenta a fidelidade, que faz com que clientes promotores indiquem a marca.

Outro exemplo está no mercado imobiliário, um decisor de compra de imóveis pode acreditar que um imóvel na planta seria um bom investimento, mas só irá fazer a compra se confiar na reputação financeira da construtora e/ou incorporadora.

No mercado de trabalho, podemos acreditar que um profissional tem potencial, tem capacidade de alcançar um propósito. Mas como acreditar é diferente de confiar, esta pessoa terá que mostrar que pode dar conta da demanda, que consegue alcançar a meta.

Quando se pensa no campo político, acreditar também se dissocia do confiar. É comum os eleitores acreditarem que um candidato está preparado, tem experiência e capacidade de gestão. Mas não confiam o seu voto ao mesmo, por avaliarem que o candidato não tem, por exemplo, viabilidade eleitoral, governabilidade ou está em um partido que não condiz com o seu perfil. 

Na gestão pública, a mesma lógica. Muitas pessoas acreditam que o governador tem condições de reduzir impostos, como prometeu em campanha. Mas, não confiam que a ação ocorra, por avaliarem que há muitos interesses econômicos e fatores externos envolvidos nesta tomada de decisão.

Acreditar e confiar são coisas diferentes! Mas acreditar em uma imagem, narrativa ou história é o primeiro passo para construir um relacionamento de confiança.

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]
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