O que pode ser pior para uma menina de dois anos e alguns meses do que viver sem um colo de mãe, um beijo antes de dormir, cama cheirosa, comida gostosa e banho morno? São coisas aparentemente simples e básicas, mas que não chegam a milhões de crianças mundo afora, aglomeradas em lares desequilibrados, instituições ditas sociais ou em campos de refugiados. A infância e a adolescência, com amor e cuidados, já são como um cristal fininho, que pode se estilhaçar ao menor vacilo. Sem amor e cuidados, é bomba-relógio. E quando há a ilusão de um lar para o antigamente “menor abandonado” ou “menor carente”, mas o tal anjo bom se revela um demônio de cargo importante, cabelo de bruxa oxigenado e coração de pedra?
Vera Lúcia Sant’Anna Gomes é procuradora aposentada, mora num apartamento tido como “de luxo” (com sacada em que ela costuma deixar seu cachorro de estimação), e resolveu adotar uma criança. Levou o brinquedinho novo para casa onde, graças à sua situação econômica, mantém vários empregados. E, como o brinquedinho não funcionou como ela queria, Vera Lúcia passou a xingá-lo, humilhá-lo e a bater nele, sem piedade e certa da sua impunidade.
Retomo aqui tudo o que já foi publicado porque preciso refazer este passo a passo para me convencer de que não é, desgraçadamente, de uma novela ruim de emissora C de televisão que estamos falando. É da vida real. A vida real em que, depois – e só depois do escândalo revelado – de entregar uma criança de menos de três anos a uma mulher cruel e possivelmente demente, a Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, através de sua juíza titular, Ivone Caetano, declarou que a bruxa não poderia tentar novas adoções.
Nos anos 90, e já relatei isso, em parte, no meu blog, ao comentar mais uma adoção de Madonna, investiguei três casos envolvendo adoção, para uma reportagem pautada pela revista Cláudia. Num dos casos, acompanhei as primeiras horas de um casal francês que, depois de filhos criados, veio a Porto Alegre para levar 3 irmãos (incluindo uma garota, já adolescente) que se encontravam num abrigo. Cheguei a manter contato com os pais adotivos mais tarde – eles me afirmaram que as crianças estavam muito bem.
O outro caso envolvia um bebê encontrado numa lixeira e que era reivindicado por sua salvadora, a quem entrevistei e que considerei, acima de tudo, fascinada pela emoção do que havia feito, e que não queria enfrentar os procedimentos normais para se candidatar a ser mãe adotiva. O terceiro caso era mais dramático: envolvia gêmeas que haviam sido separadas ao nascer, criadas por mães diferentes e que deveriam, por determinação de determinado juiz, ser novamente unidas. O desespero de uma das mães, uma cozinheira de lanchonete, com quem conversei, pela possibilidade de perder a menina, não tem como ser descrito.
Considero a adoção uma decisão mais importante do que ter filho próprio. Quem decide adotar sabe (ou deveria saber) que vai mexer na vida de quem já sofre, ou porque foi abandonado ou porque foi retirado da família natural por motivos os mais diferentes. Esta pessoa tem feridas que precisam de mais que entusiasmo e aquele amor ilusório de “fazer caridade” para que ela seja menos infeliz: é um trabalho para sempre, pede dedicação, persistência e, muitas vezes, abnegação, porque nem sempre o adotado vai retornar os mesmos sentimentos e carinhos aos que o acolheram. Resumindo: adotar não é para qualquer um. É para gente muito especial.
Este tipo de pessoa não se enquadra em categoria profissional, social ou de gênero. Se enquadra num outro patamar, pontos acima do comum mortal. Cansei de ouvir histórias do tipo “fulana pegou uma criança para criar, está dando até estudo para ela”, e isso vindo de gente com instrução suficiente para saber que escravidão é crime. Também me horrorizei quando uma conhecida me confessou que não suportava mais a criança que havia adotado quando achava que não poderia engravidar porque havia tido a sua.
Sei que não há como ter controle sobre as adoções “informais”, que são feitas ao arrepio da lei. Mas os processos que obedecem às normas legais precisam ser vigiados de perto pela sociedade. Antes, durante e depois do processo de adoção: não me conformo que um Juizado tenha oferecido uma criança em sacrifício a tal procuradora sem antes saber (e se sabia, é mais grave ainda o que fez) absolutamente tudo sobre o comportamento desta mulher.
A voz rascante de Vera Lúcia Sant’Anna Gomes não sai da minha cabeça, na gravação divulgada de seu crime contra a menina que ela estava adotando. Pior é ouvir, ao fundo desta audição do inferno, o choro da criança, indefesa diante da agressão da mulher e até da passividade de testemunhas – os empregados, que afirmaram ter-se calado por temer o poder da procuradora. Vários medos me assaltam: que muitos casos estejam ocorrendo, neste momento, iguais a este, sem denúncia por causa do medo dos subalternos e, pior, que outras Vera Lúcia estejam saindo de abrigos com crianças embaixo do braço, como mercadoria, porque simplesmente têm dinheiro e um título que as torna fada-madrinha, encobrindo sua real condição. O Juizado que permite isso também tem de ser responsabilizado. Esta menina, torturada, infelizmente, vai entrar e sair de terapia. Mas a marca da brutalidade nela permanecerá.
