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Agora, podemos dormir tranqüilos. Finalmente, temos a revelação do novo século sobre a categoria jornalística brasileira: metade é da “esquerda”, metade é da “direita”. …

Agora, podemos dormir tranqüilos. Finalmente, temos a revelação do novo século sobre a categoria jornalística brasileira: metade é da “esquerda”, metade é da “direita”. Graças a Luis Fernando Verissimo, podemos agora nos encaixar em nosso nicho político com a serenidade do dever cumprido. Para o bem e para o mal.

Não há mais aquele risco de olhar para o colega do computador ao lado e ficar em dúvida sobre suas escolhas – fatalmente, ou ele é reacionário ou é revolucionário.

Nem precisa bisbilhotar nas gavetas dos colegas para ver se encontra alguma fotinho do Lênin ou do Franco – basta ler nas entrelinhas do que ele escreve e pronto: é só selar o cara e passar a tratá-lo como porta-voz de um dos dois blocos monolíticos que automaticamente passaram a integrar.

O bom disso é que não precisamos nos preocupar com nuanças. Ou é isso ou é aquilo. Não adianta vir com conversa do tipo “eu não votei no Lula, mas…”. Já está rotulado: direitista, direitista! E cínico, ainda por cima, querendo enganar a torcida!” Ou então “eu votei no Lula, mas…”. Lá vem a patrulha: “Ahá, aderiu então. Eu sabia, eu sabia que você prega o fim da propriedade privada, mas tem até uma casinha na praia e tem Romanée Conti na adega!”.

Se Ariane Mnouchkine, criadora do Théâtre du Soleil, uma utopista declarada, blogueira do Libération,  fosse brasileira, estaria vivendo no limbo da classificação. Afinal, em março último ela assinou a listinha de intelectuais franceses pedindo voto para Ségolène Royal “contra uma Direita da arrogância e em favor de uma Esquerda de esperança”. Quatro meses depois, a grande diretora teatral seria nomeada pelo Collège de France professora associada de Criação Artística pelo período de um ano. Aos que a acusaram de ter sido seduzida pelo poder de Nicolas Sarkozy, Madame respondeu que, “ah, ele só assinou o decreto”, e há meses, envolvida com as viagens de sua troupe, não mais blogueou. E alors: Mnouchkine é de esquerda ou de direita?

Admirável mulher. Inteligente mulher. Que viu na conquista de uma cadeira na venerável instituição a oportunidade de transmitir academicamente seu conhecimento cênico e, sobretudo, humano.

Deveria ter recusado o cargo em favor de uma coerência política tão duramente cobrada?  E, caso recusasse, em que isso ajudaria em seu trabalho, em sua herança?

Num mundo dividido em dois, não há espaço nem para pensar nem para responder com um mínimo de seriedade. Só lamentar.

Autor

Maristela Bairros

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